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    <title>Blog do Cléber</title>
    <link>https://blog.cleber.solutions/blog/</link>
    <description>Só mais um Weblog</description>
    <pubDate>Tue, 07 Apr 2026 23:10:12 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>Quick: O CTO desequilibrado</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/quick-o-cto-desequilibrado</link>
      <description>&lt;![CDATA[Hoje bloqueei um determinado CTO no LinkedIn. É fato que eu não economizo blocks, mas dessa vez o motivo foi diferente do clássico “esse cara só posta bobagens sem conteúdo disfarçadas de grande conteúdo”.&#xA;&#xA;Esse colega trabalha numa empresa que faz um trabalho bem interessante e, pelo que vi, talvez poderia contribuir muito com insights legais sobre as tecnologias que usa. Entretanto, seu desequilíbrio emocional acabou fazendo com que suas últimas postagens fossem todas bastante tóxicas, o tipo de coisa que faz com que você se sinta meio estranho quando lê, mais ou menos como quando dois amigos seus brigam bem feio, você não tem muito como ajudar e acaba só observando e se sentindo meio estranho.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;A coisa toda começa com uma postagem a respeito de uma personagem que recebeu uma proposta de emprego em uma empresa legal, com bom salário e tudo o mais. O sujeito recusou porque preferia a liberdade de “dirigir Uber”. E o CTO Desequlibrado chegou a comentar que considerava “ser motorista de aplicativo” uma forma de empreender.&#xA;&#xA;Não sei se concordo totalmente, não sei se discordo totalmente, e é exatamente isso que torna a coisa toda “food for thought”. Achei interessante, me fez pensar em algo novo, dei like.&#xA;&#xA;Mas acontece que, em seguida, alguém comentou a respeito da questão salarial. Obviamente, uma desvirtuação completa da discussão, já que era claro que o rendimento com Uber seria menor que o da vaga de emprego e isso era justamente “o tempero” da história toda. E tal comentário foi feito daquele jeito agressivo que muita gente tem quando está no teclado, e que em muitos casos jamais teria se fosse uma interação face a face.&#xA;&#xA;E aí começam os problemas. A resposta do CTO foi sobre o motorista ganhar “mais que você, menos que [sei lá quem|acho que era o Elon Musk]”. Houve réplica, e a tréplica do CTO, por sua vez, foi “eu sei a média salarial da empresa em que você trabalha e você ganha pouco mesmo” (ou algo assim, escrevo de memória).&#xA;&#xA;Vê? Eu já me sinto meio mal só de repetir esse tipo de interação.&#xA;&#xA;Mas a gota d’água foi quando esse mesmo CTO estava sendo incomodado por alguma pessoa, sabe-se lá quem, e resolveu postar que entrou no perfil da figura, viu que ela postava críticas a um monte de gente, adjetivou a pessoa de “perdedor” e a essência do post era “vi que não vale meu tempo”.&#xA;&#xA;Mas, ué!, não vale teu tempo mas você teve todo esse trabalho e ainda terminou escrevendo uma nova postagem no LinkedIn a respeito do cara?&#xA;&#xA;Eita.&#xA;&#xA;Peralá, peralá… blocked!&#xA;&#xA;-----&#xA;&#xA;É claro, eu admito que não sou perfeito e não é a minha própria suposta “elevação espiritual” que serviria como parâmetro para analisar esse tipo de situação. Mas sei que posso contribuir um pouco contando sobre minha própria experiência.&#xA;&#xA;Sempre me expressei internet afora, geralmente via texto, e admito que não sou exatamente a pessoa mais sensível e delicada do mundo. E, se isso é verdade hoje, imagine há mais de dez anos!&#xA;&#xA;Pois eu fui aprendendo, bem aos poucos, às vezes tomando pancada, às vezes vendo o belo exemplo de outros, a tomar mais cuidado tanto com meu equilíbrio emocional quanto com minha forma de me expressar.&#xA;&#xA;A regra de ouro, desde algum tempo, tem sido a seguinte:&#xA;&#xA;Você pode ficar furioso. Não tem problema. Curta seu momento de fúria.&#xA;Só não tome nenhuma atitude enquanto sua cabeça não esfriar.&#xA;&#xA;Obviamente, isso pode ser um desafio e tanto. Mas é sábio. Tomar decisões “com o sangue fervendo” é a pior coisa que pode-se fazer, pois a raiva e o desequilíbrio em geral fazem com que nossa racionalidade saia pela janela para ir tomar um sol no quintal e voltar só depois de algum tempo, geralmente algumas horas.&#xA;&#xA;Depois, é importante tomar muito cuidado com a adjetivação pessoal. Referir-se ao próximo como “perdedor” é um sinal de tanta coisa errada no coração da figura que eu nem sei por onde começar… Mas é evidente, acredito eu, que esse é um caso clássico em que “o problema não são os outros, mas você mesmo”.&#xA;&#xA;E, claro, “tomar cuidado” não é o mesmo que “nunca faça”. Cá estou eu, por exemplo, referindo-me a uma pessoa como “o CTO Desequilibrado”. E garanto que tomei muito cuidado ao escolher esse “título”. No fim das contas, me parece bem adequado, especialmente porque transmite um pouco de reflexão pessoal tanto para mim (pois eu mesmo sou um CTO, então é só mais um passo para eu perder a linha e tornar-me eu mesmo um “CTO desequilibrado” também) quanto para você, leitor (que espero que esteja refletindo a respeito, pensando se você mesmo, de vez em quando, não dá uma de desequilibrado também).&#xA;&#xA;Além disso tudo, uma regra que tenho adotado é a de evitar ao máximo postar qualquer coisa que não sirva para construir. Se eu estou me sentindo de alguma forma e quero expressar isso, tenho me acostumado a perguntar a mim mesmo: “mas isso edifica quem vai ler?”.&#xA;&#xA;Particularmente, acho que os perfis mais interessantes em qualquer rede social são justamente aqueles nos quais eu percebo que tem um filtro bem rigoroso sobre o que será postado. De certa forma, é como aquele personagem mítico genérico (pelo menos na minha cabeça) que passou os últimos vinte ou trinta anos sem falar uma palavra, mas hoje resolveu dizer algo. É de se imaginar que alguém assim vai falar algo que seja extremamente relevante, não? Pois é. Tem gente que só se manifesta para falar algo que tenha valor e nada mais. E esses são os meus perfis favoritos.&#xA;&#xA;E, enfim, mesmo que isso tudo seja coisa que você já sabia, acredito que sempre é bom rememorar essas ideias que nos ajudam, de alguma forma, a sermos pessoas que edificam mais do que destroem. Acho curioso aplicar o famoso ditado (de autoria difícil de precisar) a essas questões pessoais:&#xA;&#xA;    O preço da liberdade é a eterna vigilância.&#xA;&#xA;-----&#xA;Este artigo foi escrito originalmente em 16/06/2019.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Hoje bloqueei um determinado CTO no LinkedIn. É fato que eu não economizo blocks, mas dessa vez o motivo foi diferente do clássico “esse cara só posta bobagens sem conteúdo disfarçadas de grande conteúdo”.</p>

<p>Esse colega trabalha numa empresa que faz um trabalho bem interessante e, pelo que vi, talvez poderia contribuir muito com insights legais sobre as tecnologias que usa. Entretanto, seu desequilíbrio emocional acabou fazendo com que suas últimas postagens fossem todas bastante tóxicas, o tipo de coisa que faz com que você se sinta meio estranho quando lê, mais ou menos como quando dois amigos seus brigam bem feio, você não tem muito como ajudar e acaba só observando e se sentindo meio estranho.</p>



<p>A coisa toda começa com uma postagem a respeito de uma personagem que recebeu uma proposta de emprego em uma empresa legal, com bom salário e tudo o mais. O sujeito recusou porque preferia a liberdade de “dirigir Uber”. E o CTO Desequlibrado chegou a comentar que considerava “ser motorista de aplicativo” uma forma de empreender.</p>

<p>Não sei se concordo totalmente, não sei se discordo totalmente, e é exatamente isso que torna a coisa toda “food for thought”. Achei interessante, me fez pensar em algo novo, dei like.</p>

<p>Mas acontece que, em seguida, alguém comentou a respeito da questão salarial. Obviamente, uma desvirtuação completa da discussão, já que era claro que o rendimento com Uber seria menor que o da vaga de emprego e isso era justamente “o tempero” da história toda. E tal comentário foi feito daquele jeito agressivo que muita gente tem quando está no teclado, e que em muitos casos jamais teria se fosse uma interação face a face.</p>

<p>E aí começam os problemas. A resposta do CTO foi sobre o motorista ganhar “<em>mais que você, menos que [sei lá quem|acho que era o Elon Musk]</em>”. Houve réplica, e a tréplica do CTO, por sua vez, foi “<em>eu sei a média salarial da empresa em que você trabalha e você ganha pouco mesmo</em>” (ou algo assim, escrevo de memória).</p>

<p>Vê? Eu já me sinto meio mal só de repetir esse tipo de interação.</p>

<p>Mas a gota d’água foi quando esse mesmo CTO estava sendo incomodado por alguma pessoa, sabe-se lá quem, e resolveu postar que entrou no perfil da figura, viu que ela postava críticas a um monte de gente, adjetivou a pessoa de “perdedor” e a essência do post era “<em>vi que não vale meu tempo</em>”.</p>

<p>Mas, ué!, não vale teu tempo mas você teve todo esse trabalho e ainda terminou escrevendo uma nova postagem no LinkedIn a respeito do cara?</p>

<p>Eita.</p>

<p>Peralá, peralá… blocked!</p>

<hr>

<p>É claro, eu admito que não sou perfeito e não é a minha própria suposta “elevação espiritual” que serviria como parâmetro para analisar esse tipo de situação. Mas sei que posso contribuir um pouco contando sobre minha própria experiência.</p>

<p>Sempre me expressei internet afora, geralmente via texto, e admito que não sou exatamente a pessoa mais sensível e delicada do mundo. E, se isso é verdade hoje, imagine há mais de dez anos!</p>

<p>Pois eu fui aprendendo, bem aos poucos, às vezes tomando pancada, às vezes vendo o belo exemplo de outros, a tomar mais cuidado tanto com meu equilíbrio emocional quanto com minha forma de me expressar.</p>

<p>A regra de ouro, desde algum tempo, tem sido a seguinte:</p>
<ol><li>Você pode ficar furioso. Não tem problema. Curta seu momento de fúria.</li>
<li>Só não tome nenhuma atitude enquanto sua cabeça não esfriar.</li></ol>

<p>Obviamente, isso pode ser um desafio e tanto. Mas é sábio. Tomar decisões “com o sangue fervendo” é a pior coisa que pode-se fazer, pois a raiva e o desequilíbrio em geral fazem com que nossa racionalidade saia pela janela para ir tomar um sol no quintal e voltar só depois de algum tempo, geralmente algumas horas.</p>

<p>Depois, é importante tomar muito cuidado com a adjetivação pessoal. Referir-se ao próximo como “perdedor” é um sinal de tanta coisa errada no coração da figura que eu nem sei por onde começar… Mas é evidente, acredito eu, que esse é um caso clássico em que “o problema não são os outros, mas você mesmo”.</p>

<p>E, claro, “tomar cuidado” não é o mesmo que “nunca faça”. Cá estou eu, por exemplo, referindo-me a uma pessoa como “o CTO Desequilibrado”. E garanto que tomei muito cuidado ao escolher esse “título”. No fim das contas, me parece bem adequado, especialmente porque transmite um pouco de reflexão pessoal tanto para mim (pois eu mesmo sou um CTO, então é só mais um passo para eu perder a linha e tornar-me eu mesmo um “CTO desequilibrado” também) quanto para você, leitor (que espero que esteja refletindo a respeito, pensando se você mesmo, de vez em quando, não dá uma de desequilibrado também).</p>

<p>Além disso tudo, uma regra que tenho adotado é a de evitar ao máximo postar qualquer coisa que não sirva para construir. Se eu estou me sentindo de alguma forma e quero expressar isso, tenho me acostumado a perguntar a mim mesmo: “mas isso edifica quem vai ler?”.</p>

<p>Particularmente, acho que os perfis mais interessantes em qualquer rede social são justamente aqueles nos quais eu percebo que tem um filtro bem rigoroso sobre o que será postado. De certa forma, é como aquele personagem mítico genérico (pelo menos na minha cabeça) que passou os últimos vinte ou trinta anos sem falar uma palavra, mas hoje resolveu dizer algo. É de se imaginar que alguém assim vai falar algo que seja extremamente relevante, não? Pois é. Tem gente que só se manifesta para falar algo que tenha valor e nada mais. E esses são os meus perfis favoritos.</p>

<p>E, enfim, mesmo que isso tudo seja coisa que você já sabia, acredito que sempre é bom rememorar essas ideias que nos ajudam, de alguma forma, a sermos pessoas que edificam mais do que destroem. Acho curioso aplicar o famoso ditado (de autoria difícil de precisar) a essas questões pessoais:</p>

<p>    O preço da liberdade é a eterna vigilância.</p>

<hr>

<p><em>Este artigo foi escrito originalmente em <strong>16/06/2019</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/quick-o-cto-desequilibrado</guid>
      <pubDate>Tue, 10 Jan 2023 02:17:52 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A Web potencializa nossas falhas</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/a-web-potencializa-nossas-falhas</link>
      <description>&lt;![CDATA[Nesse artigo escreverei pouco ou quase nada e, ainda assim, o conteúdo valerá por mais que mil palavras:&#xA;&#xA;failed web&#xA;&#xA;Raio X&#xA;&#xA;failed web x ray&#xA;&#xA;Resumo&#xA;Às vezes é melhor aprender a usar Lynx, Elinks e/ou w3m.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;UPDATE: ou partir para Gopher ou Gemini.&#xA;&#xA;-----&#xA;&#xA;Este artigo foi escrito originalmente em 29/12/2019.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Nesse artigo escreverei pouco ou quase nada e, ainda assim, o conteúdo valerá por mais que mil palavras:</p>

<p><img src="/upload/failed-web.jpg" alt="failed web"></p>

<h2 id="raio-x" id="raio-x">Raio X</h2>

<p><img src="/upload/failed-web-x-ray.jpg" alt="failed web x ray"></p>

<h2 id="resumo" id="resumo">Resumo</h2>
<ul><li>Às vezes é melhor aprender a usar Lynx, Elinks e/ou w3m.</li></ul>

<hr>

<p><strong>UPDATE</strong>: ou partir para Gopher ou <a href="https://gemini.circumlunar.space" rel="nofollow">Gemini</a>.</p>

<hr>

<p><em>Este artigo foi escrito originalmente em <strong>29/12/2019</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/a-web-potencializa-nossas-falhas</guid>
      <pubDate>Tue, 10 Jan 2023 02:14:45 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O Medium e a Estrela da Morte</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/o-medium-e-a-estrela-da-morte</link>
      <description>&lt;![CDATA[medium death stars&#xA;&#xA;Sempre achei o modelo de negócios do Medium a própria receita do fracasso: vender gelo para esquimós. O que me levaria a pagar para ler algum artigo quando vivo num mundo com milhões de vezes mais artigos do que é possível um ser humano ler, a respeito de todos os assuntos imagináveis?&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;personal brand in medium&#xA;&#xA;“Ah, não pago para usar o Medium, agora ficarei sem saber como construir minha marca pessoal sem gastar dinheiro…”&#xA;&#xA;O site até te permite ler um punhado desses artigos antes de te impedir de ler outros. E, para quem ainda não reparou, os artigos atrás do “muro de pagamento” são marcados com aquela estrela logo após o “18 min read”, que eu chamo de Estrela da Morte, pois ela acaba marcando, basicamente, a morte do artigo.&#xA;&#xA;Existe até uma extensão para Firefox chamada “Medium Free” que serve para eliminar da listagem os artigos pagos:&#xA;&#xA;medium free firefox extension&#xA;&#xA;Medium Free Firefox extension&#xA;&#xA;(Usei por muito tempo e funciona bem.)&#xA;&#xA;Blogar versus escrever artigos&#xA;&#xA;O Medium foi, certamente, um grande acerto por parte de seus idealizadores, e pouca gente tem falado da grande inovação apresentada sem que ninguém realmente percebesse com clareza: foi trazido à tona um novo nicho, que ou não existia ou vivia sufocado no meio de outro, completamente diferente, que é o nicho da “blogosfera”.&#xA;&#xA;A palavra “blog” tem como origem o “web log”, ou “registro na web”, que seria uma espécie de diário virtual público que uma pessoa manteria, como uma “linha do tempo” própria, antes mesmo de as redes sociais “orientadas a timeline” ganharem a força que tem hoje. E a mentalidade por trás de um blog é diferente da que hoje move o Medium e sites similares. No blog as coisas tendem a ser mais pessoais e menos “editoriais”, digamos assim.&#xA;&#xA;Não que seja impossível, impróprio ou mesmo incomum manter um blog com a ideia de escrever artigos mais parrudos. A questão que trago, aqui, é que há, de fato, duas mentalidades distintas, quais sejam, “blogar” e “escrever artigos”, e estas duas acabavam misturando-se com pouca distinção uma vez que as ferramentas e plataformas que serviam para um propósito acabavam servindo também para outro, de forma que a amálgama de ambas acabava servindo para preterir um pouco o “escrever artigos”.&#xA;&#xA;Sim, a linha é muitíssimo tênue, mas um experimento mental interessante é tentar trazer para dentro do Medium um “blogueiro” tradicional e perceber que as coisas funcionam de maneira distinta, aqui, e que o conceito de blog não se traduz automaticamente para uma Publicação do Medium.&#xA;&#xA;Logo, essa foi a grande jogada do Medium, a meu ver: focar em escrever e ler artigos e não em tentar ser uma plataforma de blogging.&#xA;&#xA;Além disso, escrever no Medium é uma experiência muito boa. Navegar por ele, especialmente no começo, era extremamente agradável.&#xA;&#xA;“Temos API”&#xA;&#xA;Mas o que me fez vir de vez para cá foi a promessa de que “temos uma API”. Tendo já migrado de diversas plataformas para diversas outras, conseguir extrair todos os meus artigos de maneira sã era uma grande necessidade.&#xA;&#xA;Todavia, não passava de uma grande mentira. A API do Medium é um lixo e não há um endpoint específico para baixar seus próprios artigos em formato decente, tendo-se que recorrer a tricks mal costurados sobre o feed RSS. Enviar um artigo via API é mais tranquilo, mas é muito difícil conseguir fugir de ainda precisar abrir o editor e corrigir um problema ou outro de formatação.&#xA;&#xA;E esse foi o primeiro grande desrespeito do Medium. Eu entrei achando que não ficaria preso. E, no fim das contas, deu bastante trabalho salvar em outro lugar todos os meus artigos.&#xA;&#xA;Outros problemas&#xA;&#xA;Mão de ferro em potencial&#xA;Por algum tempo, inclusive, rolou uma conversa de que a equipe por trás da plataforma tentaria colaborar com a melhoria do mundo (olha só) decidindo quais artigos eram bons e quais eram maus.&#xA;&#xA;De acordo com quem?&#xA;&#xA;De acordo com os californianos, claro.&#xA;&#xA;Mas acabou que a moda do momento em questão passou e me parece que acabaram não implementando nada, mesmo.&#xA;&#xA;Modelo de negócios bizarro&#xA;Nunca entendi como uma empresa esperta o suficiente para trazer o Medium à vida foi besta o bastante para tentar monetizar via paywall.&#xA;&#xA;Eles ganham dinheiro? Provavelmente.&#xA;&#xA;É um bom modelo de negócios? A meu ver, absolutamente não.&#xA;&#xA;Futuro incerto&#xA;E esse modelo de negócios estranho, que inclusive me soa como uma medida desesperada (eu lembro que ficaram bastante tempo tentando decidir como monetizar a plataforma), me faz pensar que logo chegará o dia em que alguma “gigante” comprará o Medium e, a partir daí, sabe-se lá o que acontecerá com a plataforma.&#xA;&#xA;Layout que não para quieto&#xA;PARA DE MEXER NO LAYOUT DO SITE, MEDIUM! Credo! Tá com formiga na bunda, que não para no lugar?&#xA;&#xA;Palminhas&#xA;Antigamente havia um botão para indicar que você havia gostado de um artigo. E lá pelas tantas o Medium mudou para o sistema de palmas, com um algoritmo bizarro, extremamente duvidoso e, acima de tudo, meio inútil: a única diferença que existe, mesmo, é entre 50 palminhas e qualquer-coisa-menor-que-isso, algo que poderia ser feito meramente com uma ação “gostei” e outra “gostei muito, parabéns”.&#xA;&#xA;Descentralizar não é a solução&#xA;Por algum tempo eu pensei que a solução para esses problemas estivesse em tecnologias de publicação descentralizadas. Mas hoje vejo que seria como usar um canhão para matar uma mosca. O problema não é o modelo cliente-servidor tão comumente usado, mas simplesmente a falta de respeito com o usuário e, especialmente, os modelos de negócios baseados em dados e propagandas.&#xA;&#xA;Afinal, tratando-se da publicação de artigos, qual é o problema inerente dos modelos cliente-servidor? Apenas a possibilidade de o servidor sair do ar por qualquer motivo. O restante é tudo questão da atitude dos donos das plataformas. “Não ser dono do próprio conteúdo” não é um problema causado por limitações tecnológicas, mas simplesmente porque a equipe responsável resolveu que não implementaria um jeito simples para que os autores pudessem baixar seus conteúdos e mantê-los onde acharem melhor.&#xA;&#xA;A solução, então, é simplesmente ter a atitude certa e respeitar os autores.&#xA;&#xA;“Justiça com as próprias mãos”&#xA;Já me aventurei antes tentando criar uma alternativa viável e própria, mas acabei errando em alguns pontos cruciais (e jogando tudo fora). E isso é ótimo, porque dessa vez vou focar em cometer apenas erros novos.&#xA;&#xA;Estou desenvolvendo uma plataforma alternativa novamente, dessa vez escorado em alguns princípios bem básicos:&#xA;&#xA;Respeitar o autor.&#xA;&#xA;(Eu ia escrever mais itens, mas todos acabam sendo um desdobramento do primeiro.)&#xA;&#xA;Num próximo artigo falarei mais a respeito. Até.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;UPDATE: criei, usei e larguei mão, já. :-)&#xA;&#xA;-----&#xA;&#xA;Este artigo foi escrito originalmente em 04/01/2021.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="/upload/medium-death-stars.jpg" alt="medium death stars"></p>

<p>Sempre achei o modelo de negócios do Medium a própria receita do fracasso: vender gelo para esquimós. O que me levaria a pagar para ler algum artigo quando vivo num mundo com milhões de vezes mais artigos do que é possível um ser humano ler, a respeito de todos os assuntos imagináveis?</p>



<p><img src="/upload/personal-brand-in-medium.jpg" alt="personal brand in medium"></p>

<p>“<em>Ah, não pago para usar o Medium, agora ficarei sem saber como construir minha marca pessoal sem gastar dinheiro…</em>”</p>

<p>O site até te permite ler um punhado desses artigos antes de te impedir de ler outros. E, para quem ainda não reparou, os artigos atrás do “muro de pagamento” são marcados com aquela estrela logo após o “18 min read”, que eu chamo de Estrela da Morte, pois ela acaba marcando, basicamente, a morte do artigo.</p>

<p>Existe até uma extensão para Firefox chamada “Medium Free” que serve para eliminar da listagem os artigos pagos:</p>

<p><img src="/upload/medium-free-firefox-extension.jpg" alt="medium free firefox extension"></p>

<p><a href="https://addons.mozilla.org/en-US/firefox/addon/medium-free/?src=search" rel="nofollow">Medium Free Firefox extension</a></p>

<p>(Usei por muito tempo e funciona bem.)</p>

<h3 id="blogar-versus-escrever-artigos" id="blogar-versus-escrever-artigos">Blogar versus escrever artigos</h3>

<p>O Medium foi, certamente, um grande acerto por parte de seus idealizadores, e pouca gente tem falado da grande inovação apresentada sem que ninguém realmente percebesse com clareza: foi trazido à tona um novo nicho, que ou não existia ou vivia sufocado no meio de outro, completamente diferente, que é o nicho da “blogosfera”.</p>

<p>A palavra “blog” tem como origem o “web log”, ou “registro na web”, que seria uma espécie de diário virtual público que uma pessoa manteria, como uma “linha do tempo” própria, antes mesmo de as redes sociais “orientadas a timeline” ganharem a força que tem hoje. E a mentalidade por trás de um blog é diferente da que hoje move o Medium e sites similares. No blog as coisas tendem a ser mais pessoais e menos “editoriais”, digamos assim.</p>

<p>Não que seja impossível, impróprio ou mesmo incomum manter um blog com a ideia de escrever artigos mais parrudos. A questão que trago, aqui, é que há, de fato, duas mentalidades distintas, quais sejam, “blogar” e “escrever artigos”, e estas duas acabavam misturando-se com pouca distinção uma vez que as ferramentas e plataformas que serviam para um propósito acabavam servindo também para outro, de forma que a amálgama de ambas acabava servindo para preterir um pouco o “escrever artigos”.</p>

<p>Sim, a linha é muitíssimo tênue, mas um experimento mental interessante é tentar trazer para dentro do Medium um “blogueiro” tradicional e perceber que as coisas funcionam de maneira distinta, aqui, e que o conceito de blog não se traduz automaticamente para uma Publicação do Medium.</p>

<p>Logo, essa foi a grande jogada do Medium, a meu ver: focar em escrever e ler artigos e não em tentar ser uma plataforma de blogging.</p>

<p>Além disso, escrever no Medium é uma experiência muito boa. Navegar por ele, especialmente no começo, era extremamente agradável.</p>

<h3 id="temos-api" id="temos-api">“Temos API”</h3>

<p>Mas o que me fez vir de vez para cá foi a promessa de que “temos uma API”. Tendo já migrado de diversas plataformas para diversas outras, conseguir extrair todos os meus artigos de maneira sã era uma grande necessidade.</p>

<p>Todavia, não passava de uma grande mentira. A API do Medium é um lixo e não há um endpoint específico para baixar seus próprios artigos em formato decente, tendo-se que recorrer a tricks mal costurados sobre o feed RSS. Enviar um artigo via API é mais tranquilo, mas é muito difícil conseguir fugir de ainda precisar abrir o editor e corrigir um problema ou outro de formatação.</p>

<p>E esse foi o primeiro grande desrespeito do Medium. Eu entrei achando que não ficaria preso. E, no fim das contas, deu bastante trabalho salvar em outro lugar todos os meus artigos.</p>

<h3 id="outros-problemas" id="outros-problemas">Outros problemas</h3>

<h4 id="mão-de-ferro-em-potencial" id="mão-de-ferro-em-potencial">Mão de ferro em potencial</h4>

<p>Por algum tempo, inclusive, rolou uma conversa de que a equipe por trás da plataforma tentaria colaborar com a melhoria do mundo (olha só) decidindo quais artigos eram bons e quais eram maus.</p>

<p>De acordo com quem?</p>

<p>De acordo com os californianos, claro.</p>

<p>Mas acabou que a moda do momento em questão passou e me parece que acabaram não implementando nada, mesmo.</p>

<h4 id="modelo-de-negócios-bizarro" id="modelo-de-negócios-bizarro">Modelo de negócios bizarro</h4>

<p>Nunca entendi como uma empresa esperta o suficiente para trazer o Medium à vida foi besta o bastante para tentar monetizar via paywall.</p>

<p>Eles ganham dinheiro? Provavelmente.</p>

<p>É um bom modelo de negócios? A meu ver, absolutamente não.</p>

<h4 id="futuro-incerto" id="futuro-incerto">Futuro incerto</h4>

<p>E esse modelo de negócios estranho, que inclusive me soa como uma medida desesperada (eu lembro que ficaram bastante tempo tentando decidir como monetizar a plataforma), me faz pensar que logo chegará o dia em que alguma “gigante” comprará o Medium e, a partir daí, sabe-se lá o que acontecerá com a plataforma.</p>

<h4 id="layout-que-não-para-quieto" id="layout-que-não-para-quieto">Layout que não para quieto</h4>

<p>PARA DE MEXER NO LAYOUT DO SITE, MEDIUM! Credo! Tá com formiga na bunda, que não para no lugar?</p>

<h4 id="palminhas" id="palminhas">Palminhas</h4>

<p>Antigamente havia um botão para indicar que você havia gostado de um artigo. E lá pelas tantas o Medium mudou para o sistema de palmas, com um algoritmo bizarro, extremamente duvidoso e, acima de tudo, meio inútil: a única diferença que existe, mesmo, é entre 50 palminhas e qualquer-coisa-menor-que-isso, algo que poderia ser feito meramente com uma ação “gostei” e outra “gostei muito, parabéns”.</p>

<h2 id="descentralizar-não-é-a-solução" id="descentralizar-não-é-a-solução">Descentralizar não é a solução</h2>

<p>Por algum tempo eu pensei que a solução para esses problemas estivesse em tecnologias de publicação descentralizadas. Mas hoje vejo que seria como usar um canhão para matar uma mosca. O problema não é o modelo cliente-servidor tão comumente usado, mas simplesmente a falta de respeito com o usuário e, especialmente, os modelos de negócios baseados em dados e propagandas.</p>

<p>Afinal, tratando-se da publicação de artigos, qual é o problema inerente dos modelos cliente-servidor? Apenas a possibilidade de o servidor sair do ar por qualquer motivo. O restante é tudo questão da atitude dos donos das plataformas. “Não ser dono do próprio conteúdo” não é um problema causado por limitações tecnológicas, mas simplesmente porque a equipe responsável resolveu que não implementaria um jeito simples para que os autores pudessem baixar seus conteúdos e mantê-los onde acharem melhor.</p>

<p>A solução, então, é simplesmente ter a atitude certa e respeitar os autores.</p>

<h2 id="justiça-com-as-próprias-mãos" id="justiça-com-as-próprias-mãos">“Justiça com as próprias mãos”</h2>

<p>Já me aventurei antes tentando criar uma alternativa viável e própria, mas acabei errando em alguns pontos cruciais (e jogando tudo fora). E isso é ótimo, porque dessa vez vou focar em cometer apenas erros novos.</p>

<p>Estou desenvolvendo uma plataforma alternativa novamente, dessa vez escorado em alguns princípios bem básicos:</p>
<ul><li>Respeitar o autor.</li></ul>

<p>(Eu ia escrever mais itens, mas todos acabam sendo um desdobramento do primeiro.)</p>

<p>Num próximo artigo falarei mais a respeito. Até.</p>

<hr>

<p><strong>UPDATE</strong>: criei, usei e larguei mão, já. :–)</p>

<hr>

<p><em>Este artigo foi escrito originalmente em <strong>04/01/2021</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/o-medium-e-a-estrela-da-morte</guid>
      <pubDate>Tue, 10 Jan 2023 02:10:24 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A web é a prova de que falhamos miseravelmente</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/a-web-e-a-prova-de-que-falhamos-miseravelmente</link>
      <description>&lt;![CDATA[Talvez o maior desperdício da minha vida, assim como da vida de um exército de&#xA;desenvolvedores, foi dedicar tanta energia em desenvolver e publicar e manter&#xA;e jogar fora e refazer e republicar essas porcarias dessas &#34;web applications&#34;.&#xA;A web tornou-se a maior prova da estupidez humana e a cada dia que passa esse buraco negro está sugando mais jovens cheio de energia e faltos de entendimento das coisas nessa dança de marionetes em direção ao Grande Ciclo do Vazio, em que tudo o que é feito hoje será desfeito amanhã e no qual a busca pelo jeito certo de fazer os &#34;sistemas web&#34; é eterna, sendo que nunca poderemos alcançá-lo, simplesmente porque começamos de um jeito completamente errado.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Just like the Pied Piper&#xA;Led rats throught the streets&#xA;We dance like marionettes&#xA;Swaying to the Symphony of Destruction!&#xA;  -- Symphony of Destruction do Megadeth&#xA;&#xA;[Nota: esse artigo é um &#34;rant&#34;. Ele é negativo e reclamão, mesmo, e embora&#xA;possa ser, sim, construtivo, não é seu propósito terminar com uma lição para a&#xA;vida ou uma sugestão de como as coisas podem melhorar. Escrever &#34;rants&#34; é uma&#xA;espécie de arte, assim como escrever crônicas. Aprecie o texto pelo que ele é&#xA;e não ache que estou ralhando com você ou algo assim.]&#xA;&#xA;Tudo vira lixo: um estudo de caso&#xA;&#xA;No princípio havia o Unix e um cara, talvez o Rob Pike, talvez o Ken Thompson,&#xA;talvez os dois, disse que &#34;tudo é um arquivo&#34; e que &#34;faça uma só coisa e faça&#xA;com perfeição&#34;. Mas isso não foi o bastante para combater a gana desenvolvedora&#xA;dos jovens programadores que acham que quanto mais código escreverem e quanto&#xA;mais &#34;funcionalidades&#34; puderem socar dentro de um programa, mais legais eles&#xA;serão.&#xA;&#xA;Que diabos, leia o manual do raio do comando cat em qualquer distro Linux e&#xA;você entenderá o que eu quero dizer.&#xA;&#xA;O RAIO&#xA;&#xA;DO&#xA;&#xA;COMANDO&#xA;&#xA;CAT&#xA;&#xA;O que essa desgraça deveria fazer? Ler um ou mais arquivos e &#34;imprimir&#34; na tela.&#xA;Só isso. Só precisa abrir os arquivos na ordem que o usuário passou e ir jogando&#xA;tudo na tela do raio do terminal. Ok? Podemos fazer isso?&#xA;&#xA;Não.&#xA;&#xA;Não podemos fazer isso.&#xA;&#xA;Um belo dia um miserável, provavelmente na faixa dos vinte e poucos anos, resolve&#xA;que não, &#34;só&#34; abrir um raio de um arquivo não é suficiente. Essa peste decide que&#xA;o cat ficará muito mais &#34;irado&#34; e muito mais &#34;sinistro&#34;, quiçá mais &#34;supimpa&#34;&#xA;se, além da tarefa mais trivial do universo, que é abrir uns arquivos e&#xA;imprimir o conteúdo deles na tela ou na impresso ou no que quer que seja a saída&#xA;padrão, ele também numere linhas.&#xA;&#xA;Mas só se você quiser, claro.&#xA;&#xA;Ou suprima linhas em branco repetidas.&#xA;&#xA;Mas só se você quiser.&#xA;&#xA;Ou imprima um &#39;$&#39; no fim de cada linha.&#xA;&#xA;Mas, veja só, só se você quiser.&#xA;&#xA;É um verdadeiro favor que essa criatura fez para a humanidade. Se antes o cat&#xA;tinha 50 linhas, agora ele tem 250. Olha que maravilha!&#xA;&#xA;Obrigado, jovem. #todosaplaude&#xA;&#xA;Unix é lixo&#xA;&#xA;Não fosse essa leitura, talvez você nunca ficasse sabendo da triste verdade sobre&#xA;o tão amado Unix: foi uma ideia bacana que gerou um &#34;produto&#34; legal, mas o Unix&#xA;é o equivalente da &#34;V1&#34; que serviu para alavancar a empresa e que hoje serve uma&#xA;porção de clientes mas que acaba tão miseravelmente arraigada que obriga a equipe&#xA;de desenvolvimento a conviver com ela por um tempo muito mais longo do que todos&#xA;gostariam, mesmo que todo mundo saiba o quão problemática ela é e quantas decisões&#xA;erradas foram tomadas no passado e quão melhor será a &#34;V2&#34; que nunca consegue&#xA;deixar o papel e, mesmo que seja o caso, dificilmente vai ao ar oficialmente&#xA;porque sempre há algum empecilho no caminho.&#xA;&#xA;Empresas já faliram por tentar botar a &#34;V2&#34; no ar.&#xA;&#xA;O Unix não foi sempre um lixo, assim como o cat nem sempre numerou linhas (mas&#xA;só se você quiser!). O Unix era elegante e simples por algum tempo, até que algum&#xA;jovem (pensem, humanos: o BSD é coisa de universidade! Certamente algum garoto&#xA;meteu a mão nele) resolveu criar os &#34;maravilhosos&#34; sockets.&#xA;&#xA;Ora, qual é o problema dos sockets? Simples: um socket não é um arquivo.&#xA;Você não &#34;lê&#34; de um socket, você &#34;recebe&#34;, assim como não &#34;escreve&#34;, mas &#34;envia&#34;.&#xA;&#xA;Você consegue listar sockets com o comando ls? Não. Você consegue&#xA;estatísticas sobre os sockets abertos com cat /proc/net/tcp ou `cat&#xA;/proc/net/udp`. Mas sockets não são arquivos.&#xA;&#xA;E depois (ou antes) implementaram sinais. E você pode não conseguir perceber,&#xA;porque essa situação caótica tornou-se o &#34;normal&#34; para você, mas como uma bola de&#xA;neve descendo um ladeirão branco, uma coisa levou à outra e hoje o kernel Linux&#xA;tem mais de 400 syscalls.&#xA;&#xA;E os \BSD não estão assim muito melhor, não.&#xA;&#xA;E quando aparece alguma &#34;maravilhosa inovação&#34; como o controle de &#34;capabilities&#34;,&#xA;\#todosaplaude, certo? Porque é bom, certo? É ótimo, mas nunca será nada mais que&#xA;um chuncho, uma baita enjambração, porque se tudo fosse o raio de um&#xA;arquivo ninguém teria que ficar criando uma syscall atrás da outra porque o bom&#xA;e velho sistema de permissões de arquivos resolveria tudo de maneira simples&#xA;e eficiente.&#xA;&#xA;Lembra dele, o chmod? Pois é. Já pensou que ao invés de ficar configurando&#xA;CAPS você poderia liberar ou bloquear tudo o que um programa e seus filhos podem&#xA;fazer só usando chmod?&#xA;&#xA;Mas, não, assim não é bacana, certo? Simples demais. Pra que facilitar se podemos&#xA;dificultar?&#xA;&#xA;A web é lixo&#xA;&#xA;Aqui perto de casa tem uma panificadora movimentada que dá de frente para uma rua&#xA;com largura para somente três carros. E não há faixa amarela proibindo estacionar&#xA;em nenhum lado. O resultado é que estacionam de ambos os lados e resta somente a&#xA;lacuna central para se passar com o carro.&#xA;&#xA;Tudo bem: não há sinalização, então ninguém está errado.&#xA;&#xA;Mas frequentemente um ou outro espertinho, andando pela lacuna central, percebe&#xA;que do lado certo para ele estacionar, ou seja, à sua direita, não há&#xA;vagas, enquanto à sua esquerda, ou seja, na contra-mão, há uma ou outra vaga.&#xA;E o que o triste faz? Estaciona na contra-mão.&#xA;&#xA;E eu sempre fico tentado a parar do lado do veículo de uma dessas figuras e dizer:&#xA;&#34;ei, tá estacionado errado&#34;. A pessoa vai achar que o carro ficou torno na vaga e&#xA;vai ou tentar &#34;consertar&#34; ou dizer que &#34;não está errado&#34;.&#xA;&#xA;&#34;Meu filho, se você para NO RAIO DA CONTRA-MÃO, você NUNCA estará estacionado&#xA;certo.&#34;&#xA;&#xA;A web está na contra-mão. E é por isso que nós, &#34;desenvolvedores web&#34; estamos&#xA;literalmente patinando nesse ofício lascado como um exército de Sísifos empurrando&#xA;suas pedras até o topo da montanha, apenas para que elas rolem novamente até o chão&#xA;no dia seguinte.&#xA;&#xA;&#34;Ah, mas eu uso Javascript moderno, não essa tralha do passado [literalmente: do&#xA;ano passado] que você insiste em continuar usando&#34;, um diz para o outro, sem&#xA;perceber que todas as pedras são do mesmo tamanho, no mesmo formato e com o mesmo&#xA;peso, e só o que muda são as luvas que cada um usa.&#xA;&#xA;É triste ver a baderna que nós criamos. Diabos!, nós ficamos a toda hora&#xA;reimplementando sistemas de autenticação. Nós nos reunimos para discutir o&#xA;melhor formato de armazenamento dos dados. Que são meio que os mesmos dados de&#xA;sempre, só que agora temos mais uns campos apontando para outros elementos &#34;do&#xA;sistema&#34;.&#xA;&#xA;Nós temos essa sensação de que as pessoas só usarão nossos sistemas se eles forem&#xA;bonitos e com &#34;uma UX maravilhosa&#34;, sendo que só o que as pessoas querem é&#xA;que tudo funcione com o mínimo de atrito possível.&#xA;&#xA;Mas a cada dia que passa incontáveis Joules são gastos reimplementando as mesmas&#xA;porcarias de sempre, que são erradas por natureza para começo de conversa.&#xA;Você já viu quantos clones do Trello existem por aí?&#xA;&#xA;Você já tentou contabilizar todas as coisas que o seu navegador, que é um programa&#xA;só, faz? Você nunca se perguntou por que a &#34;filosofia Unix&#34; é tão bonita em&#xA;escala pequena (como o cat) mas parece nunca ser aplicada em maior escala?&#xA;&#xA;O código fonte do Firefox é monstruoso. E vergonhoso.&#xA;&#xA;O repositório dessa infâmia demora meia hora para ser clonado. E é&#xA;capaz de haver mais linhas de código no Firefox do que no kernel Linux -- que é&#xA;outro monstro absurdo, diga-se de passagem.&#xA;&#xA;(E por que alguém, em sã consciência, resolve usar mercurial? Eu só quero clonar&#xA;o tal repositório e essa parada já está tentando me convencer a usar um tal de&#xA;fsmonitor, sem o qual ele admite ficar mesmo miseravelmente lento.)&#xA;&#xA;...&#xA;&#xA;(E agora o dito cujo está sugando toda a memória da minha máquina. É&#xA;inacreditável: o mercurial está gastando mais memória, nesse momento... do que&#xA;o Firefox!!!)&#xA;&#xA;Olha só, encontrei outro software para odiar. Bem-vindo à família,&#xA;mercurial!&#xA;&#xA;Vocês sabe quantas malditas linhas de código esse projeto infernal tem? É,&#xA;você percebeu que eu fiquei [ainda mais] alterado nesse ponto, porque já&#xA;faz quase 10 minutos que eu botei um cloc (&#34;count lines of code&#34;) para&#xA;rodar e o dito cujo ainda está tentando contabilizar quanto lixo tem nessa&#xA;pilha gigantesca.&#xA;&#xA;Mas, veja bem, eu sou um usuário do Firefox. Eu realmente aprecio tanto o&#xA;navegador quanto boa parte do trabalho da Mozilla. Pelo que eu vejo, entre&#xA;os sujos, eles são a espécie menos fétida. E, mesmo que os meios sejam&#xA;terríveis, me parece que há um anseio bacana na Mozilla para fazer da&#xA;internet um lugar realmente livre. E eu aprecio isso.&#xA;&#xA;Mas a questão aqui é ontológica: o problema, caro leitor, reside na quintessência&#xA;do que é desenvolver software. A &#34;filosofia Unix&#34; existe por um motivo. Os caras&#xA;que a trouxeram à tona já desenvolviam software havia muito tempo e, naquela&#xA;época, o cenário era caótico como hoje. O Unix surgiu enquanto os caras estavam&#xA;ocupados tentando domar uma besta gigante chamada &#34;MULTICS&#34;. E a experiência foi&#xA;mostrando a eles que padrões coerentes e simples é muito melhor do que a&#xA;arrogância de tentarmos fingir que somos capazes de lidar com programas com&#xA;milhões de linhas de código.&#xA;&#xA;Hoarde (foi ele, certo?) já diria que há duas maneiras de se desenvolver software:&#xA;tão simples a ponto de não restarem erros óbvios ou tão complexos a ponto de não&#xA;restarem erros óbvios.&#xA;&#xA;Você escolhe.&#xA;&#xA;O cloc ainda não terminou e eu te pergunto: você realmente acha seguro&#xA;executar código alheio (Javascript é exatamente isso, meu filho) na mesma &#34;caixa&#xA;de areia&#34; em que você digita a senha do seu cartão de crédito? Você já considerou&#xA;que está depositando muita confiança em um programa absurdamente grande, com,&#xA;literalmente, milhões de linhas de código?&#xA;&#xA;Quantos bugs escondem-se entre essas linhas? Eu tenho visto muita gente usando&#xA;a proporção 1/25, mas digamos que seja 1/1.000: ... PAUSA.&#xA;&#xA;Eu achei estranho demorar tanto, fui no diretório onde clonei o Firefox e resolvi&#xA;excluir o diretório .hg. O que eu vi (rm -rfv .hg) me deixou horrorizado.&#xA;&#xA;O Firefox tem cerca de 261.408 arquivos. ARQUIVOS. Se eu considerar que há um&#xA;bug a cada 1.000 ARQUIVOS, e praticando a extrema benevolência de tentar&#xA;ignorar os muitos arquivos de testes automatizados e scripts de build ou outros&#xA;utilitários, ou seja, considerando que, quando você usa o Firefox para ver algum&#xA;&#34;website&#34; você toca em meros 25.000 arquivos, poderíamos considerar que ele tem&#xA;cerca de 2.500 bugs a serem descobertos.&#xA;&#xA;DOIS MIL.&#xA;&#xA;E QUINHENTOS.&#xA;&#xA;BUGS.&#xA;&#xA;Nessa tralha que você usa para acessar o internet banking.&#xA;&#xA;Pegamos o gosto pelo lixo&#xA;&#xA;Você pega um lixo repleto de lixo e em cima disso acha que vai construir o quê?&#xA;Diabos, mais lixo, oras!&#xA;&#xA;Há um caso interessante&#xA;que mostra o quão funestamente perdidos nós estamos.&#xA;&#xA;O ano era 2014 e um mesmo trabalho de processamento e análise de dados&#xA;foi feito usando a linha de comando, com comandos e pipes* e tudo o mais&#xA;e, do outro lado, usando o &#34;Amazon Elastic Map Reduce&#34;/Hadoop.&#xA;&#xA;O cálculo que o Hadoop demorou cerca de 26 minutos para fazer foi concluído&#xA;em 12 segundos.&#xA;&#xA;DOZE.&#xA;&#xA;SEGUNDOS.&#xA;&#xA;Estamos nessa época estranha em que o sujeito se depara com alguns terabytes de&#xA;dados e logo pensa &#34;oh! Eu preciso usar ferramentas de Big Data para lidar com&#xA;isso&#34;.&#xA;&#xA;&#34;Ferramentas de Big Data&#34;. Eu poderia apostar que 90% dos casos em que alguém&#xA;pensa assim poderiam muito bem ser resolvidos com a boa e velha linha de comando.&#xA;Mas não soa tão legal, certo? E, no fim das contas, &#34;ninguém nunca foi demitido&#xA;por usar o Hadoop&#34;.&#xA;&#xA;O &#34;mundo do desenvolvimento de software&#34; está enchendo-se de novos jargões a cada&#xA;dia que passa e, enquanto todo mundo acha a última &#34;shiny new thing&#34; toda&#xA;&#34;ultra-moderna&#34; e como-nós-vivemos-sem-isso-até-agora, em algum lugar do mundo há&#xA;alguém que viu a luz e hoje chora.&#xA;&#xA;Opa! Terminou o cloc do Firefox! Até que enfim. Eu deveria ter chamado o comando&#xA;junto com o time. Mas vamos aos números:&#xA;&#xA;Mais de 4 milhões de linhas de C++.&#xA;Quase 4 milhões de linhas de Javascript.&#xA;Quase 2 milhões de linhas de C.&#xA;Quase 2 milhões de linhas de cabeçalhos C/C++ (que também é código).&#xA;Mais de 1.3 milhão de linhas de Rust.&#xA;&#xA;Sério, galera. Isso não é bom.&#xA;&#xA;Resumo&#xA;&#xA;Nós temos construído lixo sobre lixo e nos acostumado com isso de maneira tal que&#xA;nosso &#34;instinto de sobrevivência&#34; ou de apego ao que nos é familiar simplesmente&#xA;nos cega e nos mantém nesse rumo maluco e caótico em que nós achamos que estamos&#xA;no caminho certo quando estamos apenas andando em círculos, mas cada vez mais&#xA;longe do alvo.&#xA;&#xA;Eu acredito que tudo o que hoje é usufruido como uma &#34;web app&#34; pode ser&#xA;implementado e usado, por indivíduos e por equipes, como um conjunto de aplicações&#xA;simples e, especialmente, sãs (em que a contagem de linhas de código se dê&#xA;em centenas, não milhões).&#xA;&#xA;Eu acredito que mais da metade das coisas que usamos hoje, mais da metade dos&#xA;termos e mais da metade dos conceitos que hoje povoam &#34;o mundo da T.I.&#34; pode ser&#xA;simplesmente jogado no lixo.&#xA;&#xA;Não acho, claro, que o mundo vá mudar. Ninguém ouvirá a minha voz e, muito menos,&#xA;fará qualquer esforço para começar a por em ordem essa baderna absurda.&#xA;&#xA;Mas eu posso mudar. E quero mudar.&#xA;&#xA;-----&#xA;Este artigo foi escrito originalmente em 07/01/2019.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Talvez o maior desperdício da minha vida, assim como da vida de um exército de
desenvolvedores, foi dedicar tanta energia em desenvolver e publicar e manter
e jogar fora e refazer e republicar essas porcarias dessas “web applications”.
A web tornou-se a maior prova da estupidez humana e a cada dia que passa esse buraco negro está sugando mais jovens cheio de energia e faltos de entendimento das coisas nessa dança de marionetes em direção ao Grande Ciclo do Vazio, em que tudo o que é feito hoje será desfeito amanhã e no qual a busca pelo jeito certo de fazer os “sistemas web” é eterna, sendo que nunca poderemos alcançá-lo, simplesmente porque começamos de um jeito completamente errado.</p>



<pre><code>Just like the Pied Piper
Led rats throught the streets
We dance like marionettes
Swaying to the Symphony of Destruction!
  -- Symphony of Destruction do Megadeth
</code></pre>

<p>[Nota: esse artigo é um “rant”. Ele é negativo e reclamão, mesmo, e embora
possa ser, sim, construtivo, não é seu propósito terminar com uma lição para a
vida ou uma sugestão de como as coisas podem melhorar. Escrever “rants” é uma
espécie de arte, assim como escrever crônicas. Aprecie o texto pelo que ele é
e não ache que estou ralhando com você ou algo assim.]</p>

<h1 id="tudo-vira-lixo-um-estudo-de-caso" id="tudo-vira-lixo-um-estudo-de-caso">Tudo vira lixo: um estudo de caso</h1>

<p>No princípio havia o Unix e um cara, talvez o Rob Pike, talvez o Ken Thompson,
talvez os dois, disse que “tudo é um arquivo” e que “faça uma só coisa e faça
com perfeição”. Mas isso não foi o bastante para combater a gana desenvolvedora
dos jovens programadores que acham que quanto mais código escreverem e quanto
mais “funcionalidades” puderem <strong>socar</strong> dentro de um programa, mais legais eles
serão.</p>

<p>Que diabos, leia o manual do raio do comando <code>cat</code> em qualquer distro Linux e
você entenderá o que eu quero dizer.</p>

<p>O RAIO</p>

<p>DO</p>

<p>COMANDO</p>

<p>CAT</p>

<p>O que essa desgraça deveria fazer? Ler um ou mais arquivos e “imprimir” na tela.
Só isso. Só precisa abrir os arquivos na ordem que o usuário passou e ir jogando
tudo na tela do raio do terminal. Ok? Podemos fazer isso?</p>

<p>Não.</p>

<p>Não podemos fazer isso.</p>

<p>Um belo dia um miserável, provavelmente na faixa dos vinte e poucos anos, resolve
que não, “só” abrir um raio de um arquivo não é suficiente. Essa peste decide que
o <code>cat</code> ficará muito mais “irado” e muito mais “sinistro”, quiçá mais “supimpa”
se, <strong>além</strong> da tarefa mais trivial do universo, que é abrir uns arquivos e
imprimir o conteúdo deles na tela ou na impresso ou no que quer que seja a saída
padrão, ele também <strong>numere linhas</strong>.</p>

<p>Mas só se você quiser, claro.</p>

<p>Ou <strong>suprima linhas em branco repetidas</strong>.</p>

<p>Mas só se você quiser.</p>

<p>Ou imprima um &#39;$&#39; no fim de cada linha.</p>

<p>Mas, veja só, só se você quiser.</p>

<p>É um verdadeiro favor que essa criatura fez para a humanidade. Se antes o <code>cat</code>
tinha 50 linhas, agora ele tem 250. Olha que maravilha!</p>

<p>Obrigado, jovem. <a href="/blog/tag:todosaplaude" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">todosaplaude</span></a></p>

<h1 id="unix-é-lixo" id="unix-é-lixo">Unix é lixo</h1>

<p>Não fosse essa leitura, talvez você nunca ficasse sabendo da triste verdade sobre
o tão amado Unix: foi uma ideia bacana que gerou um “produto” legal, mas o Unix
é o equivalente da “V1” que serviu para alavancar a empresa e que hoje serve uma
porção de clientes mas que acaba tão miseravelmente arraigada que obriga a equipe
de desenvolvimento a conviver com ela por um tempo muito mais longo do que todos
gostariam, mesmo que todo mundo saiba o quão problemática ela é e quantas decisões
erradas foram tomadas no passado e quão melhor será a “V2” que nunca consegue
deixar o papel e, mesmo que seja o caso, dificilmente vai ao ar oficialmente
porque sempre há algum empecilho no caminho.</p>

<p>Empresas já faliram por tentar botar a “V2” no ar.</p>

<p>O Unix não foi sempre um lixo, assim como o <code>cat</code> nem sempre numerou linhas (mas
só se você quiser!). O Unix era elegante e simples por algum tempo, até que algum
jovem (pensem, humanos: o BSD é coisa de universidade! Certamente algum garoto
meteu a mão nele) resolveu criar os “maravilhosos” <strong>sockets</strong>.</p>

<p>Ora, qual é o problema dos <em>sockets</em>? Simples: <strong>um socket não é um arquivo</strong>.
Você não “lê” de um socket, você “recebe”, assim como não “escreve”, mas “envia”.</p>

<p>Você consegue listar sockets com o comando <code>ls</code>? Não. Você consegue
<strong>estatísticas</strong> sobre os sockets abertos com <code>cat /proc/net/tcp</code> ou <code>cat
/proc/net/udp</code>. Mas sockets <strong>não são</strong> arquivos.</p>

<p>E depois (ou antes) implementaram <strong>sinais</strong>. E você pode não conseguir perceber,
porque essa situação caótica tornou-se o “normal” para você, mas como uma bola de
neve descendo um ladeirão branco, uma coisa levou à outra e hoje o <em>kernel</em> Linux
tem <strong>mais de 400 syscalls</strong>.</p>

<p>E os *BSD não estão assim muito melhor, não.</p>

<p>E quando aparece alguma “maravilhosa inovação” como o controle de “capabilities”,
#todosaplaude, certo? Porque é bom, certo? É ótimo, mas nunca será nada mais que
um <strong>chuncho</strong>, uma baita <strong>enjambração</strong>, porque se tudo fosse o raio de um
arquivo ninguém teria que ficar criando uma <em>syscall</em> atrás da outra porque o bom
e velho <strong>sistema de permissões de arquivos</strong> resolveria tudo de maneira simples
e eficiente.</p>

<p>Lembra dele, o <code>chmod</code>? Pois é. Já pensou que ao invés de ficar configurando
<code>CAPS</code> você poderia liberar ou bloquear tudo o que um programa e seus filhos podem
fazer <strong>só usando chmod</strong>?</p>

<p>Mas, não, assim não é bacana, certo? Simples demais. Pra que facilitar se podemos
dificultar?</p>

<h1 id="a-web-é-lixo" id="a-web-é-lixo">A web é lixo</h1>

<p>Aqui perto de casa tem uma panificadora movimentada que dá de frente para uma rua
com largura para somente três carros. E não há faixa amarela proibindo estacionar
em nenhum lado. O resultado é que estacionam de ambos os lados e resta somente a
lacuna central para se passar com o carro.</p>

<p>Tudo bem: não há sinalização, então ninguém está errado.</p>

<p>Mas frequentemente um ou outro espertinho, andando pela lacuna central, percebe
que do lado <strong>certo</strong> para ele estacionar, ou seja, à sua <strong>direita</strong>, não há
vagas, enquanto à sua esquerda, ou seja, <strong>na contra-mão</strong>, há uma ou outra vaga.
E o que o triste faz? <strong>Estaciona na contra-mão</strong>.</p>

<p>E eu sempre fico tentado a parar do lado do veículo de uma dessas figuras e dizer:
“ei, tá estacionado errado”. A pessoa vai achar que o carro ficou torno na vaga e
vai ou tentar “consertar” ou dizer que “não está errado”.</p>

<p>“Meu filho, se você para NO RAIO DA CONTRA-MÃO, você NUNCA estará estacionado
certo.”</p>

<p><strong>A web está na contra-mão</strong>. E é por isso que nós, “desenvolvedores web” estamos
literalmente patinando nesse ofício lascado como um exército de Sísifos empurrando
suas pedras até o topo da montanha, apenas para que elas rolem novamente até o chão
no dia seguinte.</p>

<p>“Ah, mas eu uso Javascript moderno, não essa tralha do passado [literalmente: do
ano passado] que você insiste em continuar usando”, um diz para o outro, sem
perceber que todas as pedras são do mesmo tamanho, no mesmo formato e com o mesmo
peso, e só o que muda <strong>são as luvas</strong> que cada um usa.</p>

<p>É triste ver a baderna que nós criamos. Diabos!, nós ficamos a toda hora
<strong>reimplementando sistemas de autenticação</strong>. Nós nos reunimos para discutir o
melhor formato de armazenamento dos dados. Que são meio que os mesmos dados de
sempre, só que agora temos mais uns campos apontando para outros elementos “do
sistema”.</p>

<p>Nós temos essa sensação de que as pessoas só usarão nossos sistemas se eles forem
<strong>bonitos</strong> e com “uma UX maravilhosa”, sendo que só o que as pessoas querem é
que <strong>tudo funcione</strong> com o mínimo de atrito possível.</p>

<p>Mas a cada dia que passa incontáveis Joules são gastos reimplementando as mesmas
porcarias de sempre, <strong>que são erradas por natureza</strong> para começo de conversa.
Você já viu quantos clones do <strong>Trello</strong> existem por aí?</p>

<p>Você já tentou contabilizar todas as coisas que o seu navegador, que é um programa
só, faz? Você nunca se perguntou por que a “filosofia Unix” é tão bonita em
escala pequena (como o <code>cat</code>) mas parece nunca ser aplicada em maior escala?</p>

<p>O código fonte do Firefox é monstruoso. E vergonhoso.</p>

<p>O repositório dessa <strong>infâmia</strong> demora <strong>meia hora</strong> para ser clonado. E é
capaz de haver mais linhas de código no Firefox do que no <em>kernel</em> Linux — que é
outro monstro absurdo, diga-se de passagem.</p>

<p>(E por que alguém, em sã consciência, resolve usar <em>mercurial</em>? Eu só quero clonar
o tal repositório e essa parada já está tentando me convencer a usar um tal de
<code>fsmonitor</code>, sem o qual ele admite ficar mesmo miseravelmente lento.)</p>

<p>...</p>

<p>(E agora o dito cujo está sugando toda a memória da minha máquina. É
inacreditável: o <em>mercurial</em> está gastando mais memória, nesse momento... <strong>do que
o Firefox</strong>!!!)</p>

<p>Olha só, encontrei outro software para odiar. Bem-vindo à família,
mercurial!</p>

<p>Vocês sabe quantas malditas linhas de código esse projeto infernal tem? É,
você percebeu que eu fiquei [ainda mais] alterado nesse ponto, porque já
faz quase 10 minutos que eu botei um <code>cloc</code> (“count lines of code”) para
rodar e o dito cujo ainda está tentando contabilizar quanto lixo tem nessa
pilha gigantesca.</p>

<p>Mas, veja bem, eu sou um usuário do Firefox. Eu realmente aprecio tanto o
navegador quanto boa parte do trabalho da Mozilla. Pelo que eu vejo, entre
os sujos, eles são a espécie menos fétida. E, mesmo que os meios sejam
terríveis, me parece que há um anseio bacana na Mozilla para fazer da
internet um lugar realmente livre. E eu aprecio isso.</p>

<p>Mas a questão aqui é ontológica: o problema, caro leitor, reside na quintessência
do que é desenvolver software. A “filosofia Unix” existe por um motivo. Os caras
que a trouxeram à tona já desenvolviam software havia muito tempo e, naquela
época, o cenário era caótico como hoje. O Unix surgiu enquanto os caras estavam
ocupados tentando domar uma besta gigante chamada “MULTICS”. E a experiência foi
mostrando a eles que padrões coerentes e simples é <strong>muito</strong> melhor do que a
arrogância de tentarmos fingir que somos capazes de lidar com programas com
<strong>milhões</strong> de linhas de código.</p>

<p>Hoarde (foi ele, certo?) já diria que há duas maneiras de se desenvolver software:
tão simples a ponto de não restarem erros óbvios ou tão complexos a ponto de não
restarem erros óbvios.</p>

<p>Você escolhe.</p>

<p>O <code>cloc</code> ainda não terminou e eu te pergunto: você <strong>realmente</strong> acha seguro
executar código alheio (Javascript é exatamente isso, meu filho) na mesma “caixa
de areia” em que você digita a senha do seu cartão de crédito? Você já considerou
que está depositando muita confiança em um programa absurdamente grande, com,
literalmente, <strong>milhões de linhas de código</strong>?</p>

<p>Quantos <em>bugs</em> escondem-se entre essas linhas? Eu tenho visto muita gente usando
a proporção 1/25, mas digamos que seja <strong>1/1.000</strong>: ... PAUSA.</p>

<p>*Eu achei estranho demorar tanto, fui no diretório onde clonei o Firefox e resolvi
excluir o diretório <code>.hg</code>. O que eu vi (<code>rm -rfv .hg</code>) me deixou <strong>horrorizado</strong>.*</p>

<p>O Firefox tem cerca de 261.408 arquivos. <strong>ARQUIVOS</strong>. Se eu considerar que há um
bug a cada 1.000 <strong>ARQUIVOS</strong>, e praticando a extrema benevolência de tentar
ignorar os muitos arquivos de testes automatizados e scripts de build ou outros
utilitários, ou seja, considerando que, quando você usa o Firefox para ver algum
“website” você toca em meros 25.000 arquivos, poderíamos considerar que ele tem
<strong>cerca de 2.500 bugs a serem descobertos</strong>.</p>

<p>DOIS MIL.</p>

<p>E QUINHENTOS.</p>

<p>BUGS.</p>

<p>Nessa tralha que você usa <strong>para acessar o internet banking</strong>.</p>

<h1 id="pegamos-o-gosto-pelo-lixo" id="pegamos-o-gosto-pelo-lixo">Pegamos o gosto pelo lixo</h1>

<p>Você pega um lixo repleto de lixo e em cima disso acha que vai construir o quê?
Diabos, mais lixo, oras!</p>

<p>Há um <a href="https://adamdrake.com/command-line-tools-can-be-235x-faster-than-your-hadoop-cluster.html" rel="nofollow">caso interessante</a>
que mostra o quão funestamente perdidos nós estamos.</p>

<p>O ano era 2014 e um mesmo trabalho de processamento e análise de dados
foi feito usando a linha de comando, com comandos e <em>pipes</em> e tudo o mais
e, do outro lado, usando o “Amazon Elastic Map Reduce”/Hadoop.</p>

<p>O cálculo que o Hadoop demorou cerca de 26 minutos para fazer foi concluído
em <strong>12 segundos</strong>.</p>

<p>DOZE.</p>

<p>SEGUNDOS.</p>

<p>Estamos nessa época estranha em que o sujeito se depara com alguns terabytes de
dados e logo pensa “oh! Eu preciso usar ferramentas de Big Data para lidar com
isso”.</p>

<p>“Ferramentas de Big Data”. Eu poderia apostar que <strong>90%</strong> dos casos em que alguém
pensa assim poderiam muito bem ser resolvidos com a boa e velha linha de comando.
Mas não soa tão legal, certo? E, no fim das contas, “ninguém nunca foi demitido
por usar o Hadoop”.</p>

<p>O “mundo do desenvolvimento de software” está enchendo-se de novos jargões a cada
dia que passa e, enquanto todo mundo acha a última “shiny new thing” toda
“ultra-moderna” e como-nós-vivemos-sem-isso-até-agora, em algum lugar do mundo há
alguém que viu a luz e hoje chora.</p>

<p>Opa! Terminou o <code>cloc</code> do Firefox! Até que enfim. Eu deveria ter chamado o comando
junto com o <code>time</code>. Mas vamos aos números:</p>
<ul><li>Mais de <strong>4 milhões</strong> de linhas de <strong>C++</strong>.</li>
<li>Quase <strong>4 milhões</strong> de linhas de <strong>Javascript</strong>.</li>
<li>Quase <strong>2 milhões</strong> de linhas de <strong>C</strong>.</li>
<li>Quase <strong>2 milhões</strong> de linhas de cabeçalhos C/C++ (que também é código).</li>
<li>Mais de <strong>1.3 milhão</strong> de linhas de <strong>Rust</strong>.</li></ul>

<p>Sério, galera. <strong>Isso não é bom</strong>.</p>

<h1 id="resumo" id="resumo">Resumo</h1>

<p>Nós temos construído lixo sobre lixo e nos acostumado com isso de maneira tal que
nosso “instinto de sobrevivência” ou de apego ao que nos é familiar simplesmente
nos cega e nos mantém nesse rumo maluco e caótico em que nós achamos que estamos
no caminho certo quando estamos apenas andando em círculos, mas cada vez mais
longe do alvo.</p>

<p>Eu acredito que <strong>tudo</strong> o que hoje é usufruido como uma “web app” pode ser
implementado e usado, por indivíduos e por equipes, como um conjunto de aplicações
simples e, especialmente, <strong>sãs</strong> (em que a contagem de linhas de código se dê
em centenas, não milhões).</p>

<p>Eu acredito que mais da metade das coisas que usamos hoje, mais da metade dos
termos e mais da metade dos conceitos que hoje povoam “o mundo da T.I.” pode ser
simplesmente jogado no lixo.</p>

<p>Não acho, claro, que o mundo vá mudar. Ninguém ouvirá a minha voz e, muito menos,
fará qualquer esforço para começar a por em ordem essa baderna absurda.</p>

<p>Mas <strong>eu</strong> posso mudar. E quero mudar.</p>

<hr>

<p><em>Este artigo foi escrito originalmente em <strong>07/01/2019</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/a-web-e-a-prova-de-que-falhamos-miseravelmente</guid>
      <pubDate>Tue, 10 Jan 2023 02:02:30 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O preço ideal de um e-book</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/o-preco-ideal-de-um-e-book</link>
      <description>&lt;![CDATA[piracy wall&#xA;&#xA;Ou: eu pirateio&#xA;&#xA;Surge a pergunta: &#34;qual é o preço de venda ideal de um e-book?”&#xA;&#xA;E então nasce uma discussão e tanto, porque é fácil saber qual é o preço ideal para a venda de um e-book: é como qualquer outro produto e basta responder a algumas perguntas:&#xA;&#xA;É necessário algum equipamento especial para reproduzir o produto?&#xA;É necessária alguma habilidade especial para reproduzir o produto?&#xA;Qual é o limite de cópias que podem ser feitas?&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Quando você baixa da internet um e-book você acabou de fazer uma cópia dele. Você não pagou a internet exclusivamente para baixar o dito cujo, nenhuma habilidade especial foi necessária além de mover o cursor de um mouse e dar um click ou meramente encostar o dedo na tela e nenhum equipamento especial foi usado além de um computador comum (desktop/laptop/handheld) com acesso comum à internet. Além disso, não há limite razoável de cópias: uma cópia ou mil cópias, tanto faz. Logo, o preço de um e-book qualquer deveria ser sempre zero.&#xA;&#xA;E agora começa a discussão, “porque é óbvio que não pode ser zero”. Mas eu agora explico que pode, sim.&#xA;&#xA;1- Escrever não é imprimir. Nem distribuir.&#xA;As pessoas em geral nunca pagaram para que um autor escrevesse um livro. Elas pagam para que uma editora imprima uma obra e faça a distribuição destas cópias impressas, de forma que um cidadão possa caminhar até uma livraria e ter um exemplar disponível para levar para casa. O preço, nesse caso, é justo, porque é um papel em gramatura adequada, com tinta adequada impresso em maquinário adequado, com as folhas devidamente unidas em um formato geralmente bem pensado e planejado, além de toda a logística de transporte e entrega, mais o custo dos funcionários da livraria e o armazenamento e cuidado do livro em si.&#xA;&#xA;Da mesma forma, as pessoas em geral nunca pagaram para que músicos compusessem suas obras. As pessoas pagavam por cópias de mídia física que eram difíceis de se reproduzir por conta própria. Eu nunca conheci alguém que fizesse cópias de discos de vinil, por exemplo.&#xA;&#xA;Quanto custa uma música de Johann Sebastian Bach? Um bom dinheiro! Bach trabalhou em vários lugares, mas o arranjo de trabalho era simples: ele recebia um salário e era encarregado tanto de compor quanto de interpretar músicas. Logo, a conta é simples: se eu pago mil reais por mês para o Bach e ele compõe 5 músicas nesse mês, cada música dele me custou 200 reais.&#xA;&#xA;Mas quanto custa reproduzir uma música de Johann Sebastian Bach? Simples: o custo do meio. Se o meio é um organista, reproduzir uma música de Bach custa o valor que o organista cobrar. Se o meio é uma fita cassette, custa o tempo e energia necessários para botar a fita no “deque” do seu “som” e “dar o play”.&#xA;&#xA;E quanto custa distribuir uma música de Johann Sebastian Bach? Simples: o custo de se fazer uma cópia. Se a cópia está na memória do organista, o custo é o quanto o organista cobrar. Se a cópia é um disco de vinil, é o custo do material e energia necessários para “carimbar” um vinil. Se a cópia é uma fita cassette, o material (outra fita cassette), o tempo (90 minutos?) e energia (elétrica, para o “duplo deque”) compõe o custo.&#xA;&#xA;O mesmo se dá com os livros: quanto custa escrever um livro? O pagamento para o escritor. E quanto custa reproduzir um livro? O custo da cópia. E quanto custa distribuir um livro? O custo da cópia mais a logística de entrega.&#xA;&#xA;1.2- Confusão de conceitos é o problema&#xA;As pessoas em geral associam imediatamente o trabalho necessário para se escrever um livro com o direito de exclusividade de distribuição e isso é um grande problema, pois transforma a maioria das discussões a respeito de valores de livros em um festival de estupidez. Se não houver essa separação de conceitos não há como discutir-se o assunto.&#xA;&#xA;Veja: enquanto eu sou a favor que os autores, se assim o desejarem, sejam pagos para escrever livros, eu sou contra as leis que manipulam artificialmente o direito de reprodução e distribuição. E este pseudo-direito, por sua vez, é diferente dos direitos que eu considero naturais para um autor. Por exemplo: qualquer um deve poder copiar e distribuir qualquer obra minha. Entretanto, a cópia deve levar meu nome e deve ser exata e precisa — justamente porque leva o meu nome! Esse é um direito natural e que faz sentido.&#xA;&#xA;Mas, pense bem: se eu escrevi algo e você leu o que eu escrevi, qual conceito natural impede você de fazer uma cópia do que acabou de ler? Ora, nenhum! Da mesma maneira que você pode citar trechos do meu discurso e dizer aos quatro ventos: “assim disse Cléber Zavadniak: bla-bla-bla-blá&#34;.&#xA;&#xA;Ora, se eu não posso impedir você de repetir as minhas palavras, por que eu teria o direito de impedir que você repetisse minhas palavras? (Ou seja: se você pode falar o que eu falei, atribuindo a autoria à minha pessoa, por que não poderia escrever o que eu escrevi, atribuindo a autoria à minha pessoa?)&#xA;&#xA;2- Oferta e demanda&#xA;Os preços em uma economia livre baseiam-se, em maior ou menor medida, no conceito de “oferta e demanda”. Por exemplo: o valor do barril de petróleo no mundo varia de acordo com a taxa de extração. Havendo mais petróleo disponível, o preço do barril baixa, não por algum motivo artificial. O preço baixa naturalmente, porque há mais oferta.&#xA;&#xA;Você sabia que os galeões espanhóis lotados de ouro da América causaram uma enorme inflação na Europa? Todos os preços subiram porque, de repente, o ouro já não era algo assim tão difícil de se encontrar.&#xA;&#xA;Quando falamos de livros físicos é fácil ver a relação oferta/demanda em funcionamento, inclusive quando consideramos os custos de reprodução e distribuição: livros sem demanda suficiente para elevar os preços acima destes custos sequer são impressos! Há um limiar de custo que deve ser vencido para, no fim, haver lucro.&#xA;&#xA;Outra demonstração da questão oferta versus demanda são os livros extremamente caros, que só o são porque o governo mantém leis sem sentido, como a que dá direito exclusivo de reprodução de uma obra. É justamente o oposto do exemplo anterior: se lá havia falta de demanda, que não justificava a produção, aqui há excesso de demanda, que não justifica a baixa oferta. Porque, afinal, se um livro custa 500 reais mas tem custo de produção de 50, é porque há uma forte demanda mas oferta pequena. Assim, se uma gráfica qualquer conseguisse imprimir o mesmo livro com custo 400 e vendesse a 450 já estaria lucrando. E, naturalmente, a editora que vendia a 500 teria a demanda diluída, de forma que teria que baixar seus preços também.&#xA;&#xA;E quem ganha no final? Tanto o consumidor quanto as gráficas menores que “ousam” vender o mesmo livro por um preço menor.&#xA;&#xA;3- “Mas o autor tem direito de lucrar com as vendas!”&#xA;Não, não tem. Considerar que é injusto um terceiro ganhar dinheiro com a venda de cópias de uma obra sua é como querer que as bandas de sucesso devolvam dinheiro às fábricas de instrumentos musicais. Você constrói uma guitarra e é pago por isso. Ponto. Acabou a relação comercial. Outro pega a sua guitarra e a usa para lucrar milhões. Se o luthier não tem do que reclamar, por que um autor de livros teria?&#xA;&#xA;Ora, o autor é pago para escrever um livro. Nada mais justo. E, a partir do momento que o livro “ganha o mundo”, qualquer um deveria poder fazer cópias dele. Não há motivos para não ser assim!&#xA;&#xA;Entretanto, vivemos em uma época em que (1) as pessoas não conseguem dissociar, em suas mentes, o (a) trabalho de se escrever uma obra do (b) trabalho de copiá-la e distribuí-la e (2) não é costume, curiosamente, que os autores sejam pagos pelo seu trabalho, mas sim pela venda de cópias do mesmo, apesar de serem conceitos completamente diferentes. É uma praxe baseada em conceitos errôneos.&#xA;&#xA;A maioria das pessoas sequer consegue entender que, ao comprar um livro, está pagando pela cópia, não pela autoria da obra em si.&#xA;&#xA;3.1- O dinheiro mal vai para o autor, mesmo…&#xA;Coisa que poucos sabem é que a maioria das grandes editoras dedica um percentual tão irrisório quanto menos de 5% do valor de uma cópia para o autor da obra. Ou seja: dos 30 reais que você paga por uma cópia, 20 vai para a editora (chute) e cerca de 1 real vai para o autor (outro chute).&#xA;&#xA;E isso só reforça o que eu digo: você está pagando por cópias, não pela autoria. E esse percentual, mesmo que muito baixo, só existe porque as editoras precisam de algum poder de negociação para conseguir autores, já que elas não produzem conteúdo algum que seja vendável. Elas pegam um modelo de negociação (venda de cópias) e dedicam parte dos lucros a pagar outro modelo de negociação (pagar um autor para escrever um livro).&#xA;&#xA;3.2- E são poucos autores que realmente ganham algum dinheiro&#xA;No fim das contas, o lucro mesmo acaba ficando com as editoras. O autor, para ganhar dinheiro mesmo, tem que vender muito. E o próprio “vender muito” já nasce com um desafio extra, pois muitos livros excelentes acabam nas gavetas dos editores, ignorados para sempre (sério, são muitos mesmo). A qualidade do livro sequer pode ser julgada pelo público, já que precisa passar pelo “gosto” do editor antes de ser aceito em uma grande editora — o que, veja bem, é absolutamente okay, pois ninguém é obrigado a fazer nada. Mas é o tipo de coisa que definitivamente não conta muitos pontos para o sistema de distribuição atual.&#xA;&#xA;3.3- A distruibuição digital é muito diferente da distribuição física&#xA;Conseguir fazer centenas de exemplares do seu livro chegar às livrarias físicas é um trabalho e tanto. Há limitações óbvias e esse é o principal motivo pelo qual apenas um a cada mil ou mais livros é escolhido pelas editoras para ser impresso e distribuído. O número de prateleiras nas livrarias, por exemplo, é limitado.&#xA;&#xA;O mesmo se dá para os LPs, as fitas cassette, os CDs, os DVDs e quaisquer mídias físicas.&#xA;&#xA;Então é okay se um livro com tiragem limitada sendo distribuído entre milhares de livrarias custe algum valor maior que zero. Afinal, trazer aquele calhamaço de papel até a prateleira teve seu custo. Mas para distribuir um e-book, qual é o custo?&#xA;&#xA;4- O modelo só se sustenta por causa do governo&#xA;Outra grande questão com relação ao preço ideal de um e-book é o fato de que a única coisa que faz com que uma editora ganhe algum dinheiro com a venda deles é o fato de que a legislação do país ainda sustenta esse pseudo-direito da exclusividade de distribuição.&#xA;&#xA;Este modelo só é sustentável enquanto não chega o dia em que a internet (ou “a próxima internet”) volte a ser uma grande terra sem lei e sem dono. Por enquanto nós usamos enormes estruturas de cabos e roteadores que estão sob o controle dos governos mundiais estabelecidos, o que faz com que as desobediências civis necessárias à própria evolução da legislação e adequação à realidade atual do mundo sejam ainda relativamente fáceis de se inibir. É complicado você manter, hoje, um servidor de download de livros e músicas “piratas”. Mas chegará o dia em que todos estaremos conectados em uma grande rede sem fio ad-hoc baseada numa enorme rede de confiança e protegida pelo anonimato digital. Para esta nova realidade o modelo atual absolutamente não serve. É como o governo brasileiro tentando taxar o uso de Bitcoins! É um esforço vão.&#xA;&#xA;Ou seja: tão breve a cópia de conteúdo seja algo absolutamente (ênfase nessa palavra: “absolutamente”) impossível de se inibir, nosso modelo atual de “exclusividade de distribuição”, que hoje já é ultrapassado, cairá em pedaços de uma vez por todas.&#xA;&#xA;5- A nova moda do “eu não consumo produto pirata”&#xA;Novamente, confusão é o problema a ser vencido antes de haver uma discussão séria sobre isso.&#xA;&#xA;Eu tenho visto, nos últimos anos, um crescimento do discurso “certinho” de “eu não consumo produtos piratas”. Mas há uma diferenciação muito importante entre “pirata” e “pirata” que raramente é explorada de maneira adequada.&#xA;&#xA;5.1- Conceito versus coisa&#xA;Quando eu digo que sou contra o pseudo-direito de exclusividade de distribuição não estou dizendo que sou a favor de todo e qualquer tipo de “pirataria”. Há um limiar muito claro e fácil de distinguir entre o que eu considero absolutamente válido e o que realmente é errado.&#xA;&#xA;Nem o governo nem a sociedade tem o direito de me impedir de reproduzir uma música ou copiar um livro, seja de que forma for. O governo detém o poder sobre a violência e fará uso dela se me pegar “pirateando”, mas isso não torna o processo realmente legítimo. Eu absolutamente discordo que haja qualquer forma não-absolutamente-artificial de “direito” de exclusividade de distribuição.&#xA;&#xA;Quando um estudante “tira um xerox” de um livro acadêmico ele está pagando exatamente o preço que deveria pagar por aquela cópia de páginas mal configuradas e presas por uma “espiral de prástico” horrível, ainda com aquela “capinha” plástica para “dar uma disfarçada”. Sei que é ilegal, mas não considero errado. Acredito que é a lei que está errada. Se o estudante quiser uma cópia conforme impressa pela editora, — se ele acha que vale o preço pago para ter uma capa bonita, colorida e com as páginas numa configuração que faz sentido — okay, ele é livre para comprar. Mas, além de ser conceitualmente errado dar direito exclusivo de distribuição para uma editora, é ruim para os consumidores, pois faz com que o preço seja mais alto do que poderia ser — quando não faz com que livros simplesmente deixem de ser impressos e sumam das prateleiras!&#xA;&#xA;Agora, quando alguém compra um “aparelho pirata” e, sem pagar nada para uma operadora de TV por assinatura, decodifica o sinal do satélite, isso eu considero errado. É errado porque, enquanto eu ainda considero que você tem todo o direito de gravar os programas da TV e montar sua própria distribuidora de conteúdo, seja lá de que forma isso se dê, decodificar um sinal que foi devidamente criptografado é como abrir uma fechadura com clips de papel: é um furto perfeitamente qualificado.&#xA;&#xA;Todavia, se eu pago a operadora de TV por assinatura, como deveria ser, e então gravo os programas em DVD e vendo na esquina, isso para mim é perfeitamente correto. É contra a lei, mas eu não vejo problema algum: a lei é que está errada.&#xA;&#xA;5.2- Mas e software? E jogos?&#xA;Aplica-se absolutamente a mesma regra: criar um aplicativo ou um jogo é uma coisa. Distribui-lo é outra. Entretanto, isso gera um enorme desconforto para mim simplesmente porque em hipótese alguma eu iria recomendar o uso de “software proprietário”. Sou adepto do software livre porque considero que ele sempre é ou pode ser superior. E se só existe software proprietário para executar determinada tarefa eu sou do tipo que não irá utilizá-lo e ainda escreverá um e-mail para a empresa que o produz dizendo “vosso software é muito bom, mas não vou usá-lo porque não é livre”.&#xA;&#xA;Eu sou desenvolvedor, então tenho todo um “aparato filosófico” envolvendo a questão do software proprietário versus software livre. Então, se por um lado eu entendo que copiar um software e usá-lo pode até ser correto (mesmo que ilegal), eu não tenho a capacidade de apoiar tal coisa, não por outro motivo além de apoiar o desenvolvimento de software e comunidades livres.&#xA;&#xA;5.3- E cracking? Pode?&#xA;Se envolve operações sendo executadas usando somente a capacidade de processamento pela qual você pagou, o espaço de armazenamento que é teu e a energia elétrica que você paga, não vejo problema algum. Mas não faça. Procure usar software livre. Ou não use nada, que é melhor.&#xA;&#xA;Entretanto, eu nunca recomendo usar software “crackeado” dentro de empresas. Como ainda temos que lidar com o fardo governamental, nunca recomendo fazer nada que não seja perfeitamente legal nesse tipo de ambiente.&#xA;&#xA;5.3.1- Parece injusto não pagar o desenvolvedor…&#xA;Parece injusto porque o sistema todo de recompensa pelo desenvolvimento do software é baseado em premissas erradas. Tratarei desse assunto no item 6.&#xA;&#xA;6- Mas e os autores? Não perderiam o incentivo para escrever?&#xA;Se o modelo de exclusividade de distribuição morresse, isso não significaria que todos precisariam escrever livros ou compor músicas sem esperar retorno financeiro. As editoras, provavelmente, se uniriam em associações para pagar autores para escreverem. Elas, por sua vez, ganhariam dinheiro sendo as primeiras a oferecer as obras em seus catálogos.&#xA;&#xA;Haveria mudanças e haveria novas soluções. Mas não seria o fim da indústria de livros. Absolutamente. Veja como o software livre vai de vento em popa: vender “software em caixinha” é um modelo morto, mas as pessoas ainda ganham dinheiro com sofware livre. Ainda há pessoas sendo pagas para desenvolver software que nunca será vendido, mas distribuído gratuitamente.&#xA;&#xA;O mercado trabalha com demanda. Temos demanda de livros técnicos? Então alguém pagará para serem escritos livros técnicos. Temos demanda de romancinhos de banca? Então alguém pagará para serem escritos romancinhos de banca. Simples assim. Havendo demanda, alguém será pago para supri-la com oferta.&#xA;&#xA;No fim das contas, acredito que nem mesmo as editoras sairiam perdendo. Porque se por um lado elas perdem a exclusividade de distribuição dos “seus” conteúdos, ganham a possibilidade de distribuição de conteúdos “de terceiros” e uma coisa acaba balanceando a outra.&#xA;&#xA;6.1- Um modelo mais inteligente&#xA;Outra coisa interessante desse modelo isento de exclusividade de distribuição é “o xerox da faculdade” tornando-se um modelo de negócios de verdade: no fim das contas, os alunos abrem mão com alegria da capa colorida e páginas em “formato de livro” se o preço for muito menor. Assim, enquanto as grandes editoras choramingam por perder a exclusividade, gráficas menores passam a sustentar-se baseando-se na oferta de um produto mais adequado aos seus clientes: menor preço e menor qualidade.&#xA;&#xA;E quem pode pagar mais também é contemplado: podem surgir editoras especializadas em “livros de luxo”, que podem oferecer todo o catálogo, digamos, de uma biblioteca de Direito, com capa, estilo e papel padronizados (mesmo tamanho, mesma cor, mesmos materiais). Hoje isso é praticamente impossível! E uma distribuição desse tipo evidenciaria uma mudança de mentalidade: comprar-se-ia mais o serviço do que o conteúdo. O cliente não é obrigado a comprar uma composição específica de cópia de uma obra, mas pode escolher a editora ou gráfica que lhe entregue o que lhe é melhor: livros compactos? Capas de couro? Livros extremamente baratos? Tudo em papel reciclável? O cliente escolhe!&#xA;&#xA;6.2- Toda pessoa é uma editora&#xA;E então, eliminando-se a exclusividade de distribuição de conteúdo, toda pessoa acaba tornando-se uma editora — se não para os outros, pelo menos para si mesma. E retornamos à pergunta feita inicialmente: qual é o preço ideal de um e-book? Se a demanda é finita e a oferta é [ou tende a] infinita, o preço só pode ser zero. E todo e-book deveria ser gratuito.&#xA;&#xA;6.3- Chaves no Netflix&#xA;Mas termos preço zero como padrão para e-books também não será o fim do mundo. Veja só: muita gente paga serviços de streaming só para assistir Chaves e Chapolim, os programas mais antigos da TV aberta brasileira, quando bem entender. Os episódios completos do Chaves estão até no Youtube — e em boa qualidade!&#xA;&#xA;Nem sempre assinamos um serviço por querer exclusividade de conteúdo. Inclusive a própria internet torna esse conceito estranho: você consegue baixar seus filmes, músicas e séries de diversos lugares. O que se vende em serviços de streaming é menos o conteúdo e mais a praticidade: tudo está reunido em um só lugar, bem catalogado, com sugestões de outros conteúdos, qualificações, etc. Quem trocou a coleção de MP3 pelo Spotify ou similares que o diga: você até tinha todas as músicas que queria ouvir, mas esses serviços te oferecem praticidade — que é pelo que você está pagando.&#xA;&#xA;Com o fim da exclusividade de distribuição, as editoras teriam que migrar para um modelo semelhante: você até pode conseguir seus livros em qualquer outro lugar, “mas só com o serviço X da editora Y você terá toda a praticidade ou outra necessidade que você tanto quer suprir”.&#xA;&#xA;6.4- Software em caixinha&#xA;Por motivos didáticos, vamos dar ouvidos aos que arrancam os cabelos ao pensar em tudo o que eu falei e imaginar um mundo em que nenhuma empresa tem motivo para desenvolver jogos e o mundo fica completamente destituído de empresas que fazem jogos.&#xA;&#xA;Conseguiu imaginar isso? Não? É claro que não. É um cenário impossível de acontecer. É ridículo!&#xA;&#xA;Enquanto houver demanda haverá oferta e haverá alguma forma de se fazer dinheiro com isso. Se não é pela venda das “caixinhas”, será pela pré-venda. O que torna tudo até mais interessante: N pessoas tem que pagar para que um jogo tal seja desenvolvido. A empresa tem que apresentar um portfolio e mostrar-se idônea para conseguir tal financiamento. E tem que manter um histórico de agradar os jogadores se quiser continuar no mercado.&#xA;&#xA;“Ah, mas e o emprego dos desenvolvedores?”, você pode estar se perguntando. E eu respondo: o mercado de trabalho já está mudando: os profissionais altamente qualificados tem se tornado mais “executadores de projetos” do que “empregados fixos”. Nada nessa vida é simples, eu sei, mas essa questão não me parece assim tão complicada.&#xA;&#xA;Eu fico triste quando vejo que as pessoas perderam a noção do quanto um conjunto de pessoas pode conseguir se realmente quiser: os egípcios não reclamaram da falta de enormes guindastes quando construíram as grandes pirâmides: simplesmente as fizeram. E agora vem gente me dizer que ninguém mais vai escrever livros ou software se houver uma mudança na lei e, consequentemente, no modelo de negócios? Ah, me poupe…&#xA;&#xA;7- Nós podemos começar hoje a colaborar para a evolução desse modelo&#xA;7.1- Como autores&#xA;Podemos começar essa conversa sendo sinceros: se você pretende ganhar a vida escrevendo, você já está “na roça”, igual aquele teu tio que sonha em ganhar a vida fazendo música. A probabilidade de você entrar na categoria dos que não conseguiram é enorme.&#xA;&#xA;Para se ganhar dinheiro com alguma coisa é necessário ter algo que as pessoas querem. Há pessoas que querem ler um livro sobre o que você pode escrever? E mais: há pessoas que querem um livro sobre esse assunto escrito por você? Se a resposta é sim para ambas as perguntas, há esperança: pessoas podem pagar para você escrever antes mesmo de você escrever. Faça um “crowdfunding” ou algo assim.&#xA;&#xA;E não se iluda: se as pessoas não pagam antes de você escrever, também não pagam depois de você escrever. Se não há quem pague um crowdfunding, duvido que haverá muito mais gente querendo comprar sua obra depois...&#xA;&#xA;Se você concorda que é necessário eliminar o “direito” à exclusividade de distribuição, pode colaborar negando-se a assinar contratos que deem tal direito às editoras. Se elas se negarem, fuja delas.&#xA;&#xA;Talvez isso envolva negar a possibilidade de ganhar, de fato, algum dinheiro. Mas sabemos bem disso: tudo tem um preço, e especialmente mudanças desse calibre que estou propondo.&#xA;&#xA;7.2- Como consumidores&#xA;Em primeiro lugar, procure entender toda a questão antes de responder à pergunta “qual é o preço ideal de um e-book?”. Independente da conclusão a que chegar, procure desenvolver seu próprio senso moral com relação a isso.&#xA;&#xA;Eu não vou, aqui, incentivar ninguém a fazer “ilegalidades”. O que eu quero, na verdade, é que as pessoas entendam que a desobediência civil costuma ser contra a lei, mas a favor da sociedade. Já foi proibido pela lei que pessoas “negras” usassem os mesmos bebedouros que pessoas “brancas”. Já foi proibido pela lei que judeus frequentassem determinados lugares. Já foi proibido pela lei que veículos automotores passassem “rápido demais” ao lado de cavalos! As leis mudam, mas a sociedade precisa mudar antes.&#xA;&#xA;8- Linhas tênues&#xA;Talvez nós estejamos acostumados demais a glorificar os livros, ao ponto de não conseguir entender que o que os separa de outros tipos de publicações, como séries de artigos em blogs ou mesmo uma série de vídeos é meramente questão de formato. A essência é a mesma: conteúdo.&#xA;&#xA;Não é curioso pensar que muita gente tem conseguido ganhar dinheiro com blogs, talvez com maior sucesso do que autores de livros? E, enquanto há alguns autores tornando-se extremamente ricos, há milhares de blogueiros e “youtubers” tornando-se “meramente não-pobres”.&#xA;&#xA;Talvez o modelo da exclusividade de distribuição já seja comprovadamente um retrocesso e nós sequer atinamos para isso. Ou talvez estejamos tão presos a um modelo e uma legislação ultrapassadas que sequer conseguimos transcender essa mentalidade para vislumbrar uma situação diferente e talvez melhor para a sociedade em geral. Pensamos no George R. R. Martin publicando Uma Canção de Gelo e Fogo e ficando menos milionário, mas esquecemos dos milhões de empregos que poderiam ser gerados simplesmente por permitir que gráficas imprimam livros ou que novas editoras possam vender conteúdo além daquele que já é domínio público.&#xA;&#xA;9- Resumo&#xA;O trabalho de escrever é diferente do trabalho de distribuir.&#xA;O lucro real acaba indo é para as editoras.&#xA;Se a oferta é infinita e a demanda é finita, o preço deveria ser zero.&#xA;Se criar uma cópia da obra tem custo zero, o preço deveria ser zero.&#xA;Onde há demanda, há possibilidade de se ganhar dinheiro com oferta.&#xA;O direito de exclusividade sobre a distribuição não é algo natural, mas extremamente artificial.&#xA;Alguma desobediência civil é necessária para o avanço das leis.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="/upload/piracy-wall.jpg" alt="piracy wall"></p>

<p><em>Ou: eu pirateio</em></p>

<p>Surge a pergunta: “qual é o preço de venda ideal de um e-book?”</p>

<p>E então nasce uma discussão e tanto, porque é fácil saber qual é o preço ideal para a venda de um e-book: é como qualquer outro produto e basta responder a algumas perguntas:</p>
<ol><li>É necessário algum equipamento especial para reproduzir o produto?</li>
<li>É necessária alguma habilidade especial para reproduzir o produto?</li>
<li>Qual é o limite de cópias que podem ser feitas?</li></ol>



<p>Quando você baixa da internet um e-book você acabou de fazer uma cópia dele. Você não pagou a internet exclusivamente para baixar o dito cujo, nenhuma habilidade especial foi necessária além de mover o cursor de um mouse e dar um click ou meramente encostar o dedo na tela e nenhum equipamento especial foi usado além de um computador comum (desktop/laptop/handheld) com acesso comum à internet. Além disso, não há limite razoável de cópias: uma cópia ou mil cópias, tanto faz. Logo, o preço de um e-book qualquer deveria ser sempre zero.</p>

<p>E agora começa a discussão, “porque é óbvio que não pode ser zero”. Mas eu agora explico que pode, sim.</p>

<h2 id="1-escrever-não-é-imprimir-nem-distribuir" id="1-escrever-não-é-imprimir-nem-distribuir">1- Escrever não é imprimir. Nem distribuir.</h2>

<p>As pessoas em geral nunca pagaram para que um autor escrevesse um livro. Elas pagam para que uma editora imprima uma obra e faça a distribuição destas cópias impressas, de forma que um cidadão possa caminhar até uma livraria e ter um exemplar disponível para levar para casa. O preço, nesse caso, é justo, porque é um papel em gramatura adequada, com tinta adequada impresso em maquinário adequado, com as folhas devidamente unidas em um formato geralmente bem pensado e planejado, além de toda a logística de transporte e entrega, mais o custo dos funcionários da livraria e o armazenamento e cuidado do livro em si.</p>

<p>Da mesma forma, as pessoas em geral nunca pagaram para que músicos compusessem suas obras. As pessoas pagavam por cópias de mídia física que eram difíceis de se reproduzir por conta própria. Eu nunca conheci alguém que fizesse cópias de discos de vinil, por exemplo.</p>

<p>Quanto custa uma música de Johann Sebastian Bach? Um bom dinheiro! Bach trabalhou em vários lugares, mas o arranjo de trabalho era simples: ele recebia um salário e era encarregado tanto de compor quanto de interpretar músicas. Logo, a conta é simples: se eu pago mil reais por mês para o Bach e ele compõe 5 músicas nesse mês, cada música dele me custou 200 reais.</p>

<p>Mas quanto custa reproduzir uma música de Johann Sebastian Bach? Simples: o custo do meio. Se o meio é um organista, reproduzir uma música de Bach custa o valor que o organista cobrar. Se o meio é uma fita cassette, custa o tempo e energia necessários para botar a fita no “deque” do seu “som” e “dar o play”.</p>

<p>E quanto custa distribuir uma música de Johann Sebastian Bach? Simples: o custo de se fazer uma cópia. Se a cópia está na memória do organista, o custo é o quanto o organista cobrar. Se a cópia é um disco de vinil, é o custo do material e energia necessários para “carimbar” um vinil. Se a cópia é uma fita cassette, o material (outra fita cassette), o tempo (90 minutos?) e energia (elétrica, para o “duplo deque”) compõe o custo.</p>

<p>O mesmo se dá com os livros: quanto custa escrever um livro? O pagamento para o escritor. E quanto custa reproduzir um livro? O custo da cópia. E quanto custa distribuir um livro? O custo da cópia mais a logística de entrega.</p>

<h3 id="1-2-confusão-de-conceitos-é-o-problema" id="1-2-confusão-de-conceitos-é-o-problema">1.2- Confusão de conceitos é o problema</h3>

<p>As pessoas em geral associam imediatamente o trabalho necessário para se escrever um livro com o direito de exclusividade de distribuição e isso é um grande problema, pois transforma a maioria das discussões a respeito de valores de livros em um festival de estupidez. Se não houver essa separação de conceitos não há como discutir-se o assunto.</p>

<p>Veja: enquanto eu sou a favor que os autores, se assim o desejarem, sejam pagos para escrever livros, eu sou contra as leis que manipulam artificialmente o direito de reprodução e distribuição. E este pseudo-direito, por sua vez, é diferente dos direitos que eu considero naturais para um autor. Por exemplo: qualquer um deve poder copiar e distribuir qualquer obra minha. Entretanto, a cópia deve levar meu nome e deve ser exata e precisa — justamente porque leva o meu nome! Esse é um direito natural e que faz sentido.</p>

<p>Mas, pense bem: se eu escrevi algo e você leu o que eu escrevi, qual conceito natural impede você de fazer uma cópia do que acabou de ler? Ora, nenhum! Da mesma maneira que você pode citar trechos do meu discurso e dizer aos quatro ventos: “assim disse Cléber Zavadniak: bla-bla-bla-blá”.</p>

<p>Ora, se eu não posso impedir você de repetir as minhas palavras, por que eu teria o direito de impedir que você repetisse minhas palavras? (Ou seja: se você pode falar o que eu falei, atribuindo a autoria à minha pessoa, por que não poderia escrever o que eu escrevi, atribuindo a autoria à minha pessoa?)</p>

<h2 id="2-oferta-e-demanda" id="2-oferta-e-demanda">2- Oferta e demanda</h2>

<p>Os preços em uma economia livre baseiam-se, em maior ou menor medida, no conceito de “oferta e demanda”. Por exemplo: o valor do barril de petróleo no mundo varia de acordo com a taxa de extração. Havendo mais petróleo disponível, o preço do barril baixa, não por algum motivo artificial. O preço baixa naturalmente, porque há mais oferta.</p>

<p>Você sabia que os galeões espanhóis lotados de ouro da América causaram uma enorme inflação na Europa? Todos os preços subiram porque, de repente, o ouro já não era algo assim tão difícil de se encontrar.</p>

<p>Quando falamos de livros físicos é fácil ver a relação oferta/demanda em funcionamento, inclusive quando consideramos os custos de reprodução e distribuição: livros sem demanda suficiente para elevar os preços acima destes custos sequer são impressos! Há um limiar de custo que deve ser vencido para, no fim, haver lucro.</p>

<p>Outra demonstração da questão oferta versus demanda são os livros extremamente caros, que só o são porque o governo mantém leis sem sentido, como a que dá direito exclusivo de reprodução de uma obra. É justamente o oposto do exemplo anterior: se lá havia falta de demanda, que não justificava a produção, aqui há excesso de demanda, que não justifica a baixa oferta. Porque, afinal, se um livro custa 500 reais mas tem custo de produção de 50, é porque há uma forte demanda mas oferta pequena. Assim, se uma gráfica qualquer conseguisse imprimir o mesmo livro com custo 400 e vendesse a 450 já estaria lucrando. E, naturalmente, a editora que vendia a 500 teria a demanda diluída, de forma que teria que baixar seus preços também.</p>

<p>E quem ganha no final? Tanto o consumidor quanto as gráficas menores que “ousam” vender o mesmo livro por um preço menor.</p>

<h2 id="3-mas-o-autor-tem-direito-de-lucrar-com-as-vendas" id="3-mas-o-autor-tem-direito-de-lucrar-com-as-vendas">3- “Mas o autor tem direito de lucrar com as vendas!”</h2>

<p>Não, não tem. Considerar que é injusto um terceiro ganhar dinheiro com a venda de cópias de uma obra sua é como querer que as bandas de sucesso devolvam dinheiro às fábricas de instrumentos musicais. Você constrói uma guitarra e é pago por isso. Ponto. Acabou a relação comercial. Outro pega a sua guitarra e a usa para lucrar milhões. Se o luthier não tem do que reclamar, por que um autor de livros teria?</p>

<p>Ora, o autor é pago para escrever um livro. Nada mais justo. E, a partir do momento que o livro “ganha o mundo”, qualquer um deveria poder fazer cópias dele. Não há motivos para não ser assim!</p>

<p>Entretanto, vivemos em uma época em que (1) as pessoas não conseguem dissociar, em suas mentes, o (a) trabalho de se escrever uma obra do (b) trabalho de copiá-la e distribuí-la e (2) não é costume, curiosamente, que os autores sejam pagos pelo seu trabalho, mas sim pela venda de cópias do mesmo, apesar de serem conceitos completamente diferentes. É uma praxe baseada em conceitos errôneos.</p>

<p>A maioria das pessoas sequer consegue entender que, ao comprar um livro, está pagando pela cópia, não pela autoria da obra em si.</p>

<h3 id="3-1-o-dinheiro-mal-vai-para-o-autor-mesmo" id="3-1-o-dinheiro-mal-vai-para-o-autor-mesmo">3.1- O dinheiro mal vai para o autor, mesmo…</h3>

<p>Coisa que poucos sabem é que a maioria das grandes editoras dedica um percentual tão irrisório quanto menos de 5% do valor de uma cópia para o autor da obra. Ou seja: dos 30 reais que você paga por uma cópia, 20 vai para a editora (chute) e cerca de 1 real vai para o autor (outro chute).</p>

<p>E isso só reforça o que eu digo: você está pagando por cópias, não pela autoria. E esse percentual, mesmo que muito baixo, só existe porque as editoras precisam de algum poder de negociação para conseguir autores, já que elas não produzem conteúdo algum que seja vendável. Elas pegam um modelo de negociação (venda de cópias) e dedicam parte dos lucros a pagar outro modelo de negociação (pagar um autor para escrever um livro).</p>

<h3 id="3-2-e-são-poucos-autores-que-realmente-ganham-algum-dinheiro" id="3-2-e-são-poucos-autores-que-realmente-ganham-algum-dinheiro">3.2- E são poucos autores que realmente ganham algum dinheiro</h3>

<p>No fim das contas, o lucro mesmo acaba ficando com as editoras. O autor, para ganhar dinheiro mesmo, tem que vender muito. E o próprio “vender muito” já nasce com um desafio extra, pois muitos livros excelentes acabam nas gavetas dos editores, ignorados para sempre (sério, são muitos mesmo). A qualidade do livro sequer pode ser julgada pelo público, já que precisa passar pelo “gosto” do editor antes de ser aceito em uma grande editora — o que, veja bem, é absolutamente okay, pois ninguém é obrigado a fazer nada. Mas é o tipo de coisa que definitivamente não conta muitos pontos para o sistema de distribuição atual.</p>

<h3 id="3-3-a-distruibuição-digital-é-muito-diferente-da-distribuição-física" id="3-3-a-distruibuição-digital-é-muito-diferente-da-distribuição-física">3.3- A distruibuição digital é muito diferente da distribuição física</h3>

<p>Conseguir fazer centenas de exemplares do seu livro chegar às livrarias físicas é um trabalho e tanto. Há limitações óbvias e esse é o principal motivo pelo qual apenas um a cada mil ou mais livros é escolhido pelas editoras para ser impresso e distribuído. O número de prateleiras nas livrarias, por exemplo, é limitado.</p>

<p>O mesmo se dá para os LPs, as fitas cassette, os CDs, os DVDs e quaisquer mídias físicas.</p>

<p>Então é okay se um livro com tiragem limitada sendo distribuído entre milhares de livrarias custe algum valor maior que zero. Afinal, trazer aquele calhamaço de papel até a prateleira teve seu custo. Mas para distribuir um e-book, qual é o custo?</p>

<h2 id="4-o-modelo-só-se-sustenta-por-causa-do-governo" id="4-o-modelo-só-se-sustenta-por-causa-do-governo">4- O modelo só se sustenta por causa do governo</h2>

<p>Outra grande questão com relação ao preço ideal de um e-book é o fato de que a única coisa que faz com que uma editora ganhe algum dinheiro com a venda deles é o fato de que a legislação do país ainda sustenta esse pseudo-direito da exclusividade de distribuição.</p>

<p>Este modelo só é sustentável enquanto não chega o dia em que a internet (ou “a próxima internet”) volte a ser uma grande terra sem lei e sem dono. Por enquanto nós usamos enormes estruturas de cabos e roteadores que estão sob o controle dos governos mundiais estabelecidos, o que faz com que as desobediências civis necessárias à própria evolução da legislação e adequação à realidade atual do mundo sejam ainda relativamente fáceis de se inibir. É complicado você manter, hoje, um servidor de download de livros e músicas “piratas”. Mas chegará o dia em que todos estaremos conectados em uma grande rede sem fio ad-hoc baseada numa enorme rede de confiança e protegida pelo anonimato digital. Para esta nova realidade o modelo atual absolutamente não serve. É como o governo brasileiro tentando taxar o uso de Bitcoins! É um esforço vão.</p>

<p>Ou seja: tão breve a cópia de conteúdo seja algo absolutamente (ênfase nessa palavra: “absolutamente”) impossível de se inibir, nosso modelo atual de “exclusividade de distribuição”, que hoje já é ultrapassado, cairá em pedaços de uma vez por todas.</p>

<h2 id="5-a-nova-moda-do-eu-não-consumo-produto-pirata" id="5-a-nova-moda-do-eu-não-consumo-produto-pirata">5- A nova moda do “eu não consumo produto pirata”</h2>

<p>Novamente, confusão é o problema a ser vencido antes de haver uma discussão séria sobre isso.</p>

<p>Eu tenho visto, nos últimos anos, um crescimento do discurso “certinho” de “eu não consumo produtos piratas”. Mas há uma diferenciação muito importante entre “pirata” e “pirata” que raramente é explorada de maneira adequada.</p>

<h3 id="5-1-conceito-versus-coisa" id="5-1-conceito-versus-coisa">5.1- Conceito versus coisa</h3>

<p>Quando eu digo que sou contra o pseudo-direito de exclusividade de distribuição não estou dizendo que sou a favor de todo e qualquer tipo de “pirataria”. Há um limiar muito claro e fácil de distinguir entre o que eu considero absolutamente válido e o que realmente é errado.</p>

<p>Nem o governo nem a sociedade tem o direito de me impedir de reproduzir uma música ou copiar um livro, seja de que forma for. O governo detém o poder sobre a violência e fará uso dela se me pegar “pirateando”, mas isso não torna o processo realmente legítimo. Eu absolutamente discordo que haja qualquer forma não-absolutamente-artificial de “direito” de exclusividade de distribuição.</p>

<p>Quando um estudante “tira um xerox” de um livro acadêmico ele está pagando exatamente o preço que deveria pagar por aquela cópia de páginas mal configuradas e presas por uma “espiral de prástico” horrível, ainda com aquela “capinha” plástica para “dar uma disfarçada”. Sei que é ilegal, mas não considero errado. Acredito que é a lei que está errada. Se o estudante quiser uma cópia conforme impressa pela editora, — se ele acha que vale o preço pago para ter uma capa bonita, colorida e com as páginas numa configuração que faz sentido — okay, ele é livre para comprar. Mas, além de ser conceitualmente errado dar direito exclusivo de distribuição para uma editora, é ruim para os consumidores, pois faz com que o preço seja mais alto do que poderia ser — quando não faz com que livros simplesmente deixem de ser impressos e sumam das prateleiras!</p>

<p>Agora, quando alguém compra um “aparelho pirata” e, sem pagar nada para uma operadora de TV por assinatura, decodifica o sinal do satélite, isso eu considero errado. É errado porque, enquanto eu ainda considero que você tem todo o direito de gravar os programas da TV e montar sua própria distribuidora de conteúdo, seja lá de que forma isso se dê, decodificar um sinal que foi devidamente criptografado é como abrir uma fechadura com clips de papel: é um furto perfeitamente qualificado.</p>

<p>Todavia, se eu pago a operadora de TV por assinatura, como deveria ser, e então gravo os programas em DVD e vendo na esquina, isso para mim é perfeitamente correto. É contra a lei, mas eu não vejo problema algum: a lei é que está errada.</p>

<h3 id="5-2-mas-e-software-e-jogos" id="5-2-mas-e-software-e-jogos">5.2- Mas e software? E jogos?</h3>

<p>Aplica-se absolutamente a mesma regra: criar um aplicativo ou um jogo é uma coisa. Distribui-lo é outra. Entretanto, isso gera um enorme desconforto para mim simplesmente porque em hipótese alguma eu iria recomendar o uso de “software proprietário”. Sou adepto do software livre porque considero que ele sempre é ou pode ser superior. E se só existe software proprietário para executar determinada tarefa eu sou do tipo que não irá utilizá-lo e ainda escreverá um e-mail para a empresa que o produz dizendo “vosso software é muito bom, mas não vou usá-lo porque não é livre”.</p>

<p>Eu sou desenvolvedor, então tenho todo um “aparato filosófico” envolvendo a questão do software proprietário versus software livre. Então, se por um lado eu entendo que copiar um software e usá-lo pode até ser correto (mesmo que ilegal), eu não tenho a capacidade de apoiar tal coisa, não por outro motivo além de apoiar o desenvolvimento de software e comunidades livres.</p>

<h3 id="5-3-e-cracking-pode" id="5-3-e-cracking-pode">5.3- E cracking? Pode?</h3>

<p>Se envolve operações sendo executadas usando somente a capacidade de processamento pela qual você pagou, o espaço de armazenamento que é teu e a energia elétrica que você paga, não vejo problema algum. Mas não faça. Procure usar software livre. Ou não use nada, que é melhor.</p>

<p>Entretanto, eu nunca recomendo usar software “crackeado” dentro de empresas. Como ainda temos que lidar com o fardo governamental, nunca recomendo fazer nada que não seja perfeitamente legal nesse tipo de ambiente.</p>

<h4 id="5-3-1-parece-injusto-não-pagar-o-desenvolvedor" id="5-3-1-parece-injusto-não-pagar-o-desenvolvedor">5.3.1- Parece injusto não pagar o desenvolvedor…</h4>

<p>Parece injusto porque o sistema todo de recompensa pelo desenvolvimento do software é baseado em premissas erradas. Tratarei desse assunto no item 6.</p>

<h2 id="6-mas-e-os-autores-não-perderiam-o-incentivo-para-escrever" id="6-mas-e-os-autores-não-perderiam-o-incentivo-para-escrever">6- Mas e os autores? Não perderiam o incentivo para escrever?</h2>

<p>Se o modelo de exclusividade de distribuição morresse, isso não significaria que todos precisariam escrever livros ou compor músicas sem esperar retorno financeiro. As editoras, provavelmente, se uniriam em associações para pagar autores para escreverem. Elas, por sua vez, ganhariam dinheiro sendo as primeiras a oferecer as obras em seus catálogos.</p>

<p>Haveria mudanças e haveria novas soluções. Mas não seria o fim da indústria de livros. Absolutamente. Veja como o software livre vai de vento em popa: vender “software em caixinha” é um modelo morto, mas as pessoas ainda ganham dinheiro com sofware livre. Ainda há pessoas sendo pagas para desenvolver software que nunca será vendido, mas distribuído gratuitamente.</p>

<p>O mercado trabalha com demanda. Temos demanda de livros técnicos? Então alguém pagará para serem escritos livros técnicos. Temos demanda de romancinhos de banca? Então alguém pagará para serem escritos romancinhos de banca. Simples assim. Havendo demanda, alguém será pago para supri-la com oferta.</p>

<p>No fim das contas, acredito que nem mesmo as editoras sairiam perdendo. Porque se por um lado elas perdem a exclusividade de distribuição dos “seus” conteúdos, ganham a possibilidade de distribuição de conteúdos “de terceiros” e uma coisa acaba balanceando a outra.</p>

<h2 id="6-1-um-modelo-mais-inteligente" id="6-1-um-modelo-mais-inteligente">6.1- Um modelo mais inteligente</h2>

<p>Outra coisa interessante desse modelo isento de exclusividade de distribuição é “o xerox da faculdade” tornando-se um modelo de negócios de verdade: no fim das contas, os alunos abrem mão com alegria da capa colorida e páginas em “formato de livro” se o preço for muito menor. Assim, enquanto as grandes editoras choramingam por perder a exclusividade, gráficas menores passam a sustentar-se baseando-se na oferta de um produto mais adequado aos seus clientes: menor preço e menor qualidade.</p>

<p>E quem pode pagar mais também é contemplado: podem surgir editoras especializadas em “livros de luxo”, que podem oferecer todo o catálogo, digamos, de uma biblioteca de Direito, com capa, estilo e papel padronizados (mesmo tamanho, mesma cor, mesmos materiais). Hoje isso é praticamente impossível! E uma distribuição desse tipo evidenciaria uma mudança de mentalidade: comprar-se-ia mais o serviço do que o conteúdo. O cliente não é obrigado a comprar uma composição específica de cópia de uma obra, mas pode escolher a editora ou gráfica que lhe entregue o que lhe é melhor: livros compactos? Capas de couro? Livros extremamente baratos? Tudo em papel reciclável? O cliente escolhe!</p>

<h3 id="6-2-toda-pessoa-é-uma-editora" id="6-2-toda-pessoa-é-uma-editora">6.2- Toda pessoa é uma editora</h3>

<p>E então, eliminando-se a exclusividade de distribuição de conteúdo, toda pessoa acaba tornando-se uma editora — se não para os outros, pelo menos para si mesma. E retornamos à pergunta feita inicialmente: qual é o preço ideal de um e-book? Se a demanda é finita e a oferta é [ou tende a] infinita, o preço só pode ser zero. E todo e-book deveria ser gratuito.</p>

<h3 id="6-3-chaves-no-netflix" id="6-3-chaves-no-netflix">6.3- Chaves no Netflix</h3>

<p>Mas termos preço zero como padrão para e-books também não será o fim do mundo. Veja só: muita gente paga serviços de streaming só para assistir Chaves e Chapolim, os programas mais antigos da TV aberta brasileira, quando bem entender. Os episódios completos do Chaves estão até no Youtube — e em boa qualidade!</p>

<p>Nem sempre assinamos um serviço por querer exclusividade de conteúdo. Inclusive a própria internet torna esse conceito estranho: você consegue baixar seus filmes, músicas e séries de diversos lugares. O que se vende em serviços de streaming é menos o conteúdo e mais a praticidade: tudo está reunido em um só lugar, bem catalogado, com sugestões de outros conteúdos, qualificações, etc. Quem trocou a coleção de MP3 pelo Spotify ou similares que o diga: você até tinha todas as músicas que queria ouvir, mas esses serviços te oferecem praticidade — que é pelo que você está pagando.</p>

<p>Com o fim da exclusividade de distribuição, as editoras teriam que migrar para um modelo semelhante: você até pode conseguir seus livros em qualquer outro lugar, “mas só com o serviço X da editora Y você terá toda a praticidade ou outra necessidade que você tanto quer suprir”.</p>

<h3 id="6-4-software-em-caixinha" id="6-4-software-em-caixinha">6.4- Software em caixinha</h3>

<p>Por motivos didáticos, vamos dar ouvidos aos que arrancam os cabelos ao pensar em tudo o que eu falei e imaginar um mundo em que nenhuma empresa tem motivo para desenvolver jogos e o mundo fica completamente destituído de empresas que fazem jogos.</p>

<p>Conseguiu imaginar isso? Não? É claro que não. É um cenário impossível de acontecer. É ridículo!</p>

<p>Enquanto houver demanda haverá oferta e haverá alguma forma de se fazer dinheiro com isso. Se não é pela venda das “caixinhas”, será pela pré-venda. O que torna tudo até mais interessante: N pessoas tem que pagar para que um jogo tal seja desenvolvido. A empresa tem que apresentar um portfolio e mostrar-se idônea para conseguir tal financiamento. E tem que manter um histórico de agradar os jogadores se quiser continuar no mercado.</p>

<p>“Ah, mas e o emprego dos desenvolvedores?”, você pode estar se perguntando. E eu respondo: o mercado de trabalho já está mudando: os profissionais altamente qualificados tem se tornado mais “executadores de projetos” do que “empregados fixos”. Nada nessa vida é simples, eu sei, mas essa questão não me parece assim tão complicada.</p>

<p>Eu fico triste quando vejo que as pessoas perderam a noção do quanto um conjunto de pessoas pode conseguir se realmente quiser: os egípcios não reclamaram da falta de enormes guindastes quando construíram as grandes pirâmides: simplesmente as fizeram. E agora vem gente me dizer que ninguém mais vai escrever livros ou software se houver uma mudança na lei e, consequentemente, no modelo de negócios? Ah, me poupe…</p>

<h2 id="7-nós-podemos-começar-hoje-a-colaborar-para-a-evolução-desse-modelo" id="7-nós-podemos-começar-hoje-a-colaborar-para-a-evolução-desse-modelo">7- Nós podemos começar hoje a colaborar para a evolução desse modelo</h2>

<h3 id="7-1-como-autores" id="7-1-como-autores">7.1- Como autores</h3>

<p>Podemos começar essa conversa sendo sinceros: se você pretende ganhar a vida escrevendo, você já está “na roça”, igual aquele teu tio que sonha em ganhar a vida fazendo música. A probabilidade de você entrar na categoria dos que não conseguiram é enorme.</p>

<p>Para se ganhar dinheiro com alguma coisa é necessário ter algo que as pessoas querem. Há pessoas que querem ler um livro sobre o que você pode escrever? E mais: há pessoas que querem um livro sobre esse assunto escrito por você? Se a resposta é sim para ambas as perguntas, há esperança: pessoas podem pagar para você escrever antes mesmo de você escrever. Faça um “crowdfunding” ou algo assim.</p>

<p>E não se iluda: se as pessoas não pagam antes de você escrever, também não pagam depois de você escrever. Se não há quem pague um crowdfunding, duvido que haverá muito mais gente querendo comprar sua obra depois...</p>

<p>Se você concorda que é necessário eliminar o “direito” à exclusividade de distribuição, pode colaborar negando-se a assinar contratos que deem tal direito às editoras. Se elas se negarem, fuja delas.</p>

<p>Talvez isso envolva negar a possibilidade de ganhar, de fato, algum dinheiro. Mas sabemos bem disso: tudo tem um preço, e especialmente mudanças desse calibre que estou propondo.</p>

<h3 id="7-2-como-consumidores" id="7-2-como-consumidores">7.2- Como consumidores</h3>

<p>Em primeiro lugar, procure entender toda a questão antes de responder à pergunta “qual é o preço ideal de um e-book?”. Independente da conclusão a que chegar, procure desenvolver seu próprio senso moral com relação a isso.</p>

<p>Eu não vou, aqui, incentivar ninguém a fazer “ilegalidades”. O que eu quero, na verdade, é que as pessoas entendam que a desobediência civil costuma ser contra a lei, mas a favor da sociedade. Já foi proibido pela lei que pessoas “negras” usassem os mesmos bebedouros que pessoas “brancas”. Já foi proibido pela lei que judeus frequentassem determinados lugares. Já foi proibido pela lei que veículos automotores passassem “rápido demais” ao lado de cavalos! As leis mudam, mas a sociedade precisa mudar antes.</p>

<h2 id="8-linhas-tênues" id="8-linhas-tênues">8- Linhas tênues</h2>

<p>Talvez nós estejamos acostumados demais a glorificar os livros, ao ponto de não conseguir entender que o que os separa de outros tipos de publicações, como séries de artigos em blogs ou mesmo uma série de vídeos é meramente questão de formato. A essência é a mesma: conteúdo.</p>

<p>Não é curioso pensar que muita gente tem conseguido ganhar dinheiro com blogs, talvez com maior sucesso do que autores de livros? E, enquanto há alguns autores tornando-se extremamente ricos, há milhares de blogueiros e “youtubers” tornando-se “meramente não-pobres”.</p>

<p>Talvez o modelo da exclusividade de distribuição já seja comprovadamente um retrocesso e nós sequer atinamos para isso. Ou talvez estejamos tão presos a um modelo e uma legislação ultrapassadas que sequer conseguimos transcender essa mentalidade para vislumbrar uma situação diferente e talvez melhor para a sociedade em geral. Pensamos no George R. R. Martin publicando Uma Canção de Gelo e Fogo e ficando menos milionário, mas esquecemos dos milhões de empregos que poderiam ser gerados simplesmente por permitir que gráficas imprimam livros ou que novas editoras possam vender conteúdo além daquele que já é domínio público.</p>

<h2 id="9-resumo" id="9-resumo">9- Resumo</h2>
<ul><li>O trabalho de escrever é diferente do trabalho de distribuir.</li>
<li>O lucro real acaba indo é para as editoras.</li>
<li>Se a oferta é infinita e a demanda é finita, o preço deveria ser zero.</li>
<li>Se criar uma cópia da obra tem custo zero, o preço deveria ser zero.</li>
<li>Onde há demanda, há possibilidade de se ganhar dinheiro com oferta.</li>
<li>O direito de exclusividade sobre a distribuição não é algo natural, mas extremamente artificial.</li>
<li>Alguma desobediência civil é necessária para o avanço das leis.</li></ul>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/o-preco-ideal-de-um-e-book</guid>
      <pubDate>Tue, 10 Jan 2023 01:56:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Estabelecendo processos próprios num emprego que não os exige</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/estabelecendo-processos-proprios-num-emprego-que-nao-os-exige</link>
      <description>&lt;![CDATA[grey clock.webp&#xA;&#xA;Recentemente ministrei uma pequena palestra para alguns alunos da Kenzie Academy e achei a experiência de conversar com quem está se preparando para entrar na “indústria de T.I.” bem interessante, inclusive porque me fez pensar em como pode ser complicado começar a trabalhar com um mínimo de ordem em um emprego moderninho que, a princípio, não estabelece nenhum tipo de ordem.&#xA;&#xA;Explico: na minha juventude trabalhei em empresas que tinham os horários e as expectativas claros: tu chega nessa hora, vai almoçar nessa, volta naquela e vai embora em tal horário. E vamos te passando as tarefas e você vai fazendo.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;E se por um lado hoje temos processos geralmente muito mais claros (“vamos te passando as tarefas” deu lugar a reuniões de planejamento muitas vezes semanais), por outro vai tornando-se mais difícil encontrar empresas que ainda insistem no modelo de bater-o-ponto. Antes havia a presença clara do chefe, enquanto hoje as decisões mais “granulares” geralmente são tomadas pela própria equipe. O senta-e-obedece deu lugar ao “participe das tomadas de decisões”. Navegar por um mundo assim, já de começo, sem ter tido o costume de seguir regras mais rígidas, pode ser uma aventura confusa e até assustadora.&#xA;&#xA;É fácil simplesmente perder-se. Se ninguém fala sobre horário, será “deselegante” eu me recusar a fazer algum serviço depois que o meu expediente já tiver terminado? Se todos chegam num consenso, será “desagradável” eu dizer que para mim a decisão não faz o menor sentido?&#xA;&#xA;E o grande macete, caro colega, é entender que nada desaparece: as coisas simplesmente mudam de lugar.&#xA;&#xA;Horários&#xA;A não ser que seja dito explicitamente o contrário, geralmente é esperado do funcionário uma jornada de oito horas de trabalho. A empresa pode declarar que não contabiliza horário, que cada um faz o seu, mas no fim do dia o que se espera é que 1 dia trabalhado, independente de como você queira organizar seus horários, seja mais ou menos o equivalente a uma jornada de oito horas.&#xA;&#xA;Mas não mais que isso! São oito.&#xA;&#xA;E aqui a dica é: organize-se como achar melhor, mas contabilize suas horas. Como falei antes: nada desaparece! O relógio-ponto sumiu? Não. Ele apenas mudou de lugar: agora é tua responsabilidade controlar seus horários, entende? E é muito importante saber disso, porque agora “o ônus da prova” se inverte: antes a empresa cobrava que você marcasse o ponto corretamente e contabilizava cada hora, para que você não trabalhasse menos do que o previsto em contrato. Mas hoje é você quem tem que controlar suas horas para que não aconteça de você trabalhar mais do que previsto em contrato.&#xA;&#xA;Se antes você precisava de permissão do chefe para sair meia hora mais cedo, agora é o chefe que precisa da tua permissão para pedir mais meia hora de trabalho e não tem nada de errado com isso, mas se você não se aperceber dessa sua responsabilidade consigo mesmo, acabará sempre levando a pior e entregando de graça um tempo precioso que é o tempo que você tem para dedicar às pessoas que você ama e a si mesmo.&#xA;&#xA;Ademais, controlar bem seus horários é parte da sua responsabilidade para com a empresa. É um tanto contraintuitivo, eu sei, mas é verdade: é muito melhor para a empresa que você tenha controle sobre suas horas trabalhadas. Isso porque vai chegar um dia em que você se sentirá exausto e sobrecarregado e vai pedir alguma atitude do seu empregador. Você terá a sensação de ter trabalho demais e, se não tiver controle de suas horas, acabará deixando a empresa na situação ruim de ter que simplesmente acreditar na sua palavra sem nenhuma demonstração concreta de que você de fato tem trabalhado mais do que o combinado.&#xA;&#xA;Veja: a empresa que não controla horário não tem como argumentar contigo! Se você diz que está fazendo muitas horas-extras, como não há um relógio-ponto para ser consultado, acaba que você meio que encosta o empregador contra a parede. E pode parecer algo muito “empoderado”, mas não passa de uma tremenda sacanagem da tua parte, porque talvez nem você mesmo saiba com certeza se tua impressão é baseada em fatos ou é só uma impressão — pode até ser que outros fatores pessoais estejam te deixando cansado e, no fim das contas, você ande fazendo menos horas diariamente!&#xA;&#xA;Ou seja: é melhor para todos que você tenha seu controle próprio de suas horas. E também é absolutamente correto e nada esquisito ouvir de você “ isso é realmente urgente? Porque já deu meu horário. Posso ver isso amanhã cedo pra você “.&#xA;&#xA;“ O combinado não sai caro “. Certo?&#xA;&#xA;Tomadas de decisão&#xA;Numa estrutura organizacional rigidamente hierárquica, quando algo vai mal, é muito fácil apontar dedos. E esses dedos geralmente apontam para quem está mais baixo na hierarquia.&#xA;&#xA;Mas hoje é comum estarmos quase todos no fundo da hierarquia e quando a água bate na bunda os mesmos dedos serão apontados porque, repito, nada desaparece, apenas muda de lugar.&#xA;&#xA;No caso dos dedos, espera-se que eles mudem de direção: você deve apontar seu dedo para si mesmo. Porque se antes as responsabilidades eram bem divididas, hoje todos são responsáveis por tudo e isso siginifica que você é responsável por tudo também.&#xA;&#xA;E lembre-se bem disso que vou dizer: se você uma vez fizer a porquice de abrir o microfone para apontar o dedo para outrem, eternamente serás o miserável que abre o microfone para tirar o seu da reta. E não tem nada mais triste do que um adulto infantilóide que não tem auto-consideração o bastante para perceber o papel ridículo que faz quando manifesta-se para tentar deixar claro que a culpa não é dele mas de qualquer outro à sua volta.&#xA;&#xA;Se o seu coleguinha não entendeu direito sua tarefa, então você assume a responsabilidade por não ter incentivado todos a garantirem que estão na mesma página. Se a diretoria tomou uma decisão inadequada por não estar próxima o bastante do cliente a ponto de entender o que realmente gera valor para ele, você assume a responsabilidade por não ter dado um jeito de fazê-los entenderem melhor a situação.&#xA;&#xA;Isso não significa que você precise martirizar-se constantemente como que carregado de culpas, mas que em toda situação você deve ser capaz de perguntar-se (1) o que você poderia ter feito diferente para que a cagada não acontecesse e (2) o que a equipe poderia ter feito diferente para que a cagada não acontecesse. Se você fica contente em simplesmente apontar o dedo para seu semelhante e dar de ombros para a situação, você é limitado demais e não contribui em nada com a melhoria de todos.&#xA;&#xA;E se todos à sua volta são assim: fuja dessa empresa e não olhe para trás.&#xA;&#xA;Mas nem tudo são problemas e espera-se que todos colaborem para que as melhores decisões sejam tomadas. Talvez você não tenha acesso às decisões estratégicas, mas mesmo no operacional nosso de cada dia tem-se sempre uma porção de decisões a serem tomadas e espera-se que você contribua com a equipe e, tudo dando certo, também sinta-se participante da satisfação de ter conseguido bons resultados.&#xA;&#xA;Resumo&#xA;A empresa transferiu uma porção responsabilidades para você;&#xA;com grandes responsabilidades vem grandes poderes;&#xA;aprenda a controlar e usar bem esses seus poderes.&#xA;&#xA;-----&#xA;&#xA;Este artigo foi originalmente escrito em 02/02/2021.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="/upload/grey-clock.webp" alt="grey clock.webp"></p>

<p>Recentemente ministrei uma pequena palestra para alguns alunos da Kenzie Academy e achei a experiência de conversar com quem está se preparando para entrar na “indústria de T.I.” bem interessante, inclusive porque me fez pensar em como pode ser complicado começar a trabalhar com um mínimo de ordem em um emprego moderninho que, a princípio, não estabelece nenhum tipo de ordem.</p>

<p>Explico: na minha juventude trabalhei em empresas que tinham os horários e as expectativas claros: tu chega nessa hora, vai almoçar nessa, volta naquela e vai embora em tal horário. E vamos te passando as tarefas e você vai fazendo.</p>



<p>E se por um lado hoje temos processos geralmente muito mais claros (“vamos te passando as tarefas” deu lugar a reuniões de planejamento muitas vezes semanais), por outro vai tornando-se mais difícil encontrar empresas que ainda insistem no modelo de bater-o-ponto. Antes havia a presença clara do chefe, enquanto hoje as decisões mais “granulares” geralmente são tomadas pela própria equipe. O senta-e-obedece deu lugar ao “participe das tomadas de decisões”. Navegar por um mundo assim, já de começo, sem ter tido o costume de seguir regras mais rígidas, pode ser uma aventura confusa e até assustadora.</p>

<p>É fácil simplesmente perder-se. Se ninguém fala sobre horário, será “deselegante” eu me recusar a fazer algum serviço depois que o meu expediente já tiver terminado? Se todos chegam num consenso, será “desagradável” eu dizer que para mim a decisão não faz o menor sentido?</p>

<p>E o grande macete, caro colega, é entender que nada desaparece: as coisas simplesmente mudam de lugar.</p>

<h2 id="horários" id="horários">Horários</h2>

<p>A não ser que seja dito explicitamente o contrário, geralmente é esperado do funcionário uma jornada de oito horas de trabalho. A empresa pode declarar que não contabiliza horário, que cada um faz o seu, mas no fim do dia o que se espera é que 1 dia trabalhado, independente de como você queira organizar seus horários, seja mais ou menos o equivalente a uma jornada de oito horas.</p>

<p>Mas não mais que isso! São oito.</p>

<p>E aqui a dica é: organize-se como achar melhor, mas contabilize suas horas. Como falei antes: nada desaparece! O relógio-ponto sumiu? Não. Ele apenas mudou de lugar: agora é tua responsabilidade controlar seus horários, entende? E é muito importante saber disso, porque agora “o ônus da prova” se inverte: antes a empresa cobrava que você marcasse o ponto corretamente e contabilizava cada hora, para que você não trabalhasse menos do que o previsto em contrato. Mas hoje é você quem tem que controlar suas horas para que não aconteça de você trabalhar mais do que previsto em contrato.</p>

<p>Se antes você precisava de permissão do chefe para sair meia hora mais cedo, agora é o chefe que precisa da tua permissão para pedir mais meia hora de trabalho e não tem nada de errado com isso, mas se você não se aperceber dessa sua responsabilidade consigo mesmo, acabará sempre levando a pior e entregando de graça um tempo precioso que é o tempo que você tem para dedicar às pessoas que você ama e a si mesmo.</p>

<p>Ademais, controlar bem seus horários é parte da sua responsabilidade para com a empresa. É um tanto contraintuitivo, eu sei, mas é verdade: é muito melhor para a empresa que você tenha controle sobre suas horas trabalhadas. Isso porque vai chegar um dia em que você se sentirá exausto e sobrecarregado e vai pedir alguma atitude do seu empregador. Você terá a sensação de ter trabalho demais e, se não tiver controle de suas horas, acabará deixando a empresa na situação ruim de ter que simplesmente acreditar na sua palavra sem nenhuma demonstração concreta de que você de fato tem trabalhado mais do que o combinado.</p>

<p>Veja: a empresa que não controla horário não tem como argumentar contigo! Se você diz que está fazendo muitas horas-extras, como não há um relógio-ponto para ser consultado, acaba que você meio que encosta o empregador contra a parede. E pode parecer algo muito “empoderado”, mas não passa de uma tremenda sacanagem da tua parte, porque talvez nem você mesmo saiba com certeza se tua impressão é baseada em fatos ou é só uma impressão — pode até ser que outros fatores pessoais estejam te deixando cansado e, no fim das contas, você ande fazendo menos horas diariamente!</p>

<p>Ou seja: é melhor para todos que você tenha seu controle próprio de suas horas. E também é absolutamente correto e nada esquisito ouvir de você “ isso é realmente urgente? Porque já deu meu horário. Posso ver isso amanhã cedo pra você “.</p>

<p>“ O combinado não sai caro “. Certo?</p>

<h2 id="tomadas-de-decisão" id="tomadas-de-decisão">Tomadas de decisão</h2>

<p>Numa estrutura organizacional rigidamente hierárquica, quando algo vai mal, é muito fácil apontar dedos. E esses dedos geralmente apontam para quem está mais baixo na hierarquia.</p>

<p>Mas hoje é comum estarmos quase todos no fundo da hierarquia e quando a água bate na bunda os mesmos dedos serão apontados porque, repito, nada desaparece, apenas muda de lugar.</p>

<p>No caso dos dedos, espera-se que eles mudem de direção: você deve apontar seu dedo para si mesmo. Porque se antes as responsabilidades eram bem divididas, hoje todos são responsáveis por tudo e isso siginifica que você é responsável por tudo também.</p>

<p>E lembre-se bem disso que vou dizer: se você uma vez fizer a porquice de abrir o microfone para apontar o dedo para outrem, eternamente serás o miserável que abre o microfone para tirar o seu da reta. E não tem nada mais triste do que um adulto infantilóide que não tem auto-consideração o bastante para perceber o papel ridículo que faz quando manifesta-se para tentar deixar claro que a culpa não é dele mas de qualquer outro à sua volta.</p>

<p>Se o seu coleguinha não entendeu direito sua tarefa, então você assume a responsabilidade por não ter incentivado todos a garantirem que estão na mesma página. Se a diretoria tomou uma decisão inadequada por não estar próxima o bastante do cliente a ponto de entender o que realmente gera valor para ele, você assume a responsabilidade por não ter dado um jeito de fazê-los entenderem melhor a situação.</p>

<p>Isso não significa que você precise martirizar-se constantemente como que carregado de culpas, mas que em toda situação você deve ser capaz de perguntar-se (1) o que você poderia ter feito diferente para que a cagada não acontecesse e (2) o que a equipe poderia ter feito diferente para que a cagada não acontecesse. Se você fica contente em simplesmente apontar o dedo para seu semelhante e dar de ombros para a situação, você é limitado demais e não contribui em nada com a melhoria de todos.</p>

<p>E se todos à sua volta são assim: fuja dessa empresa e não olhe para trás.</p>

<p>Mas nem tudo são problemas e espera-se que todos colaborem para que as melhores decisões sejam tomadas. Talvez você não tenha acesso às decisões estratégicas, mas mesmo no operacional nosso de cada dia tem-se sempre uma porção de decisões a serem tomadas e espera-se que você contribua com a equipe e, tudo dando certo, também sinta-se participante da satisfação de ter conseguido bons resultados.</p>

<h2 id="resumo" id="resumo">Resumo</h2>
<ul><li>A empresa transferiu uma porção responsabilidades para você;</li>
<li>com grandes responsabilidades vem grandes poderes;</li>
<li>aprenda a controlar e usar bem esses seus poderes.</li></ul>

<hr>

<p><em>Este artigo foi originalmente escrito em <strong>02/02/2021</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/estabelecendo-processos-proprios-num-emprego-que-nao-os-exige</guid>
      <pubDate>Tue, 10 Jan 2023 01:45:48 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Start small, stay small</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/start-small-stay-small</link>
      <description>&lt;![CDATA[start small stay small.webp&#xA;&#xA;Hoje (20/01/2021) terminei a leitura do livro “Start small, stay small”, de Rob Walling e Mike Taber. Trata-se de um guia para desenvolvedores de software começarem microempresas, seja como “micropreneur”, que é quem resolve trabalhar sempre sozinho, ou como alguém que almeja ter seu próprio negócio, contratando mais alguns funcionários.&#xA;&#xA;O ponto de vista é interessante justamente por ter como público alvo desenvolvedores de software e ecoa algumas coisas que tenho falado faz algum tempo, já: que a qualidade técnica do projeto representa uma parte pequena do produto como um todo.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Inclusive ele deixa bem claro que ter um projeto ruim num bom mercado e com bom marketing é melhor do que ter um projeto excelente sem algum destes últimos dois items.&#xA;&#xA;A tríade colocada pelo autor, em ordem de importância, é justamente esta: mercado, marketing e produto.&#xA;&#xA;Sobre mercado, a opinião apresentada é similar à do “ De Zero a Um “, do Peter Thiel: é sempre melhor abocanhar uma fatia bem grande de um mercado pequeno do que ter um pequeno pedacinho de um mercado enorme. Ter menos concorrência é uma das vantagens.&#xA;&#xA;Sobre marketing, o segredo é conseguir apresentar seu produto para muitas pessoas mas com foco em conseguir leads bem qualificados, porque, novamente, é melhor ter uma taxa de conversão muito alta, mesmo que num público reduzido, do que uma taxa muito baixa em um público enorme. No primeiro caso, o custo de aquisição é muito mais baixo.&#xA;&#xA;A importância de se trabalhar com nichos é muito salientada, inclusive.&#xA;&#xA;O produto em si, no fim das contas, ganha muito menos ênfase, para desespero justamente dos programadores, que são fissurados em qualidade técnica. O que importa mesmo é não somente o que já sabemos ser essencial, que é resolver o problema de alguém, mas também resolver de maneira que esse alguém queira pagar para ter tal problema solucionado.&#xA;&#xA;https://www.amazon.com.br/gp/product/B003YH9MMI/ref=aslitl?ie=UTF8&amp;camp=1789&amp;creative=9325&amp;creativeASIN=B003YH9MMI&amp;linkCode=as2&amp;tag=clebertech-20&amp;linkId=d8a8bb3d37a8e11c3e7f331a5577c6b2&#xA;&#xA;Abaixo segue uma palestra do autor (me parece que o livro é muito mais do Rob do que do Mike):&#xA;&#xA;https://www.youtube.com/watch?v=hxkpTJvRSuA&#xA;&#xA;-----&#xA;Este artigo foi originalmente escrito em 21/01/2021.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="/upload/start-small-stay-small.webp" alt="start small stay small.webp"></p>

<p>Hoje (20/01/2021) terminei a leitura do livro “Start small, stay small”, de Rob Walling e Mike Taber. Trata-se de um guia para desenvolvedores de software começarem microempresas, seja como “micropreneur”, que é quem resolve trabalhar sempre sozinho, ou como alguém que almeja ter seu próprio negócio, contratando mais alguns funcionários.</p>

<p>O ponto de vista é interessante justamente por ter como público alvo desenvolvedores de software e ecoa algumas coisas que tenho falado faz algum tempo, já: que a qualidade técnica do projeto representa uma parte pequena do produto como um todo.</p>



<p>Inclusive ele deixa bem claro que ter um projeto ruim num bom mercado e com bom marketing é melhor do que ter um projeto excelente sem algum destes últimos dois items.</p>

<p>A tríade colocada pelo autor, em ordem de importância, é justamente esta: mercado, marketing e produto.</p>

<p>Sobre mercado, a opinião apresentada é similar à do “ De Zero a Um “, do Peter Thiel: é sempre melhor abocanhar uma fatia bem grande de um mercado pequeno do que ter um pequeno pedacinho de um mercado enorme. Ter menos concorrência é uma das vantagens.</p>

<p>Sobre marketing, o segredo é conseguir apresentar seu produto para muitas pessoas mas com foco em conseguir leads bem qualificados, porque, novamente, é melhor ter uma taxa de conversão muito alta, mesmo que num público reduzido, do que uma taxa muito baixa em um público enorme. No primeiro caso, o custo de aquisição é muito mais baixo.</p>

<p>A importância de se trabalhar com nichos é muito salientada, inclusive.</p>

<p>O produto em si, no fim das contas, ganha muito menos ênfase, para desespero justamente dos programadores, que são fissurados em qualidade técnica. O que importa mesmo é não somente o que já sabemos ser essencial, que é resolver o problema de alguém, mas também resolver de maneira que esse alguém queira pagar para ter tal problema solucionado.</p>

<p><a href="https://www.amazon.com.br/gp/product/B003YH9MMI/ref=as_li_tl?ie=UTF8&amp;camp=1789&amp;creative=9325&amp;creativeASIN=B003YH9MMI&amp;linkCode=as2&amp;tag=clebertech-20&amp;linkId=d8a8bb3d37a8e11c3e7f331a5577c6b2" rel="nofollow">https://www.amazon.com.br/gp/product/B003YH9MMI/ref=as_li_tl?ie=UTF8&amp;camp=1789&amp;creative=9325&amp;creativeASIN=B003YH9MMI&amp;linkCode=as2&amp;tag=clebertech-20&amp;linkId=d8a8bb3d37a8e11c3e7f331a5577c6b2</a></p>

<p>Abaixo segue uma palestra do autor (me parece que o livro é muito mais do Rob do que do Mike):</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hxkpTJvRSuA" rel="nofollow">https://www.youtube.com/watch?v=hxkpTJvRSuA</a></p>

<hr>

<p><em>Este artigo foi originalmente escrito em <strong>21/01/2021</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/start-small-stay-small</guid>
      <pubDate>Tue, 10 Jan 2023 01:40:50 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Você não faz nada direito</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/voce-nao-faz-nada-direito</link>
      <description>&lt;![CDATA[lamp breaking on the ground&#xA;&#xA;Do inglês: “demeaning”. Uma tradução que não faz violência ao termo é “diminuição“. Diminuição do próximo é o que você faz quando, no momento de raiva, esbraveja frases que começam com “você”.&#xA;&#xA;-- Você não faz nada direito!&#xA;&#xA;-- Você não presta atenção, mesmo!&#xA;&#xA;-- Você é um desajeitado!&#xA;&#xA;-- Mas você só pode fazer isso de propósito!&#xA;&#xA;Eis aqui uma lição que vai além da empresa e chega ao lar, e além do lar e chega na empresa. Diminuição nunca ajuda em nada. Quando você esbraveja esse tipo de coisa inpensada para alguém, você diminui esse alguém e só consegue piorar a situação.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Quem comete erros não quer, não necessita e não merece ser diminuído. Quando você usa a diminuição como penalidade por erros, você está tirando o que resta de boa vontade de quem os cometeu. Afinal, por que eu deveria me preocupar em mudar, já que você está dizendo com todas as letras que esse erro é uma característica intrínseca à minha natureza? Por que eu deveria dar ouvidos a quem parece me odiar?&#xA;&#xA;Quando o prato cheio de comida caiu no chão e quebrou-se, eu não preciso adicionar um rosto cheio de raiva à situação. O que eu preciso é de ajuda! A consequencia do erro já é, em si, uma das melhores lições a respeito do meu comportamento e a vida já cuida para que eu a receba. O que eu espero de você é empatia. E ajuda para limpar a sujeira.&#xA;&#xA;A empatia abre portas. Não vale nada você ser um poço de sabedoria infinita se as pessoas querem distância de você. Você foi buscar material de limpeza para ajudar quem derrubou o prato de comida no chão? Você não precisa e nem deve fazer toda a limpeza, mas pode facilitar as coisas. É somente depois do “muito obrigado” que o “você deveria prestar mais atenção aos próprios passos” é realmente eficiente. É somente depois de você ativamente ajudar a desfazer o Grande Acidente junto ao precioso cliente da empresa que, finalmente, você poderá recitar as Grandes Lições sobre como não permitir que isso volte a acontecer e ser ouvido atentamente.&#xA;&#xA;Diminuição gera efeitos negativos. O ser humano sente-se pior do que já está, se entristece além da conta e considera-se culpado por algo que, a princípio, pode acontecer com qualquer pessoa.&#xA;&#xA;(Claro, as maldades cometidas voluntariamente estão sujeitas a tratamentos diferenciados.)&#xA;&#xA;Controle suas emoções, tome atitudes práticas e positivas, evite a diminuição e pratique a empatia.&#xA;&#xA;Ou saia por aí alargando feridas e queimando pessoas. Fica a teu critério.&#xA;&#xA;-----&#xA;Este artigo foi escrito originalmente em 14/08/206.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="/upload/lamp-breaking-on-the-ground.jpg" alt="lamp breaking on the ground"></p>

<p>Do inglês: “demeaning”. Uma tradução que não faz violência ao termo é “diminuição“. Diminuição do próximo é o que você faz quando, no momento de raiva, esbraveja frases que começam com “você”.</p>

<p>— Você não faz nada direito!</p>

<p>— Você não presta atenção, mesmo!</p>

<p>— Você é um desajeitado!</p>

<p>— Mas você só pode fazer isso de propósito!</p>

<p>Eis aqui uma lição que vai além da empresa e chega ao lar, e além do lar e chega na empresa. Diminuição nunca ajuda em nada. Quando você esbraveja esse tipo de coisa inpensada para alguém, você diminui esse alguém e só consegue piorar a situação.</p>



<p>Quem comete erros não quer, não necessita e não merece ser diminuído. Quando você usa a diminuição como penalidade por erros, você está tirando o que resta de boa vontade de quem os cometeu. Afinal, por que eu deveria me preocupar em mudar, já que você está dizendo com todas as letras que esse erro é uma característica intrínseca à minha natureza? Por que eu deveria dar ouvidos a quem parece me odiar?</p>

<p>Quando o prato cheio de comida caiu no chão e quebrou-se, eu não preciso adicionar um rosto cheio de raiva à situação. O que eu preciso é de ajuda! A consequencia do erro já é, em si, uma das melhores lições a respeito do meu comportamento e a vida já cuida para que eu a receba. O que eu espero de você é empatia. E ajuda para limpar a sujeira.</p>

<p>A empatia abre portas. Não vale nada você ser um poço de sabedoria infinita se as pessoas querem distância de você. Você foi buscar material de limpeza para ajudar quem derrubou o prato de comida no chão? Você não precisa e nem deve fazer toda a limpeza, mas pode facilitar as coisas. É somente depois do “muito obrigado” que o “você deveria prestar mais atenção aos próprios passos” é realmente eficiente. É somente depois de você ativamente ajudar a desfazer o Grande Acidente junto ao precioso cliente da empresa que, finalmente, você poderá recitar as Grandes Lições sobre como não permitir que isso volte a acontecer e ser ouvido atentamente.</p>

<p>Diminuição gera efeitos negativos. O ser humano sente-se pior do que já está, se entristece além da conta e considera-se culpado por algo que, a princípio, pode acontecer com qualquer pessoa.</p>

<p>(Claro, as maldades cometidas voluntariamente estão sujeitas a tratamentos diferenciados.)</p>

<p>Controle suas emoções, tome atitudes práticas e positivas, evite a diminuição e pratique a empatia.</p>

<p>Ou saia por aí alargando feridas e queimando pessoas. Fica a teu critério.</p>

<hr>

<p><em>Este artigo foi escrito originalmente em <strong>14/08/206</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/voce-nao-faz-nada-direito</guid>
      <pubDate>Mon, 09 Jan 2023 19:40:24 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Exemplo no trato</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/exemplo-no-trato</link>
      <description>&lt;![CDATA[two guys talking statue&#xA;&#xA;Uma palavra que desde muito cedo me chamou a atenção e permanece gravada na minha memória é 1 Timóteo 4:12:&#xA;&#xA;    Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza.&#xA;&#xA;Por tratar-se de uma carta aberta, Paulo está dizendo às pessoas à volta de Timóteo: respeitem-no. E a Timóteo: faça por merecer tal respeito.&#xA;&#xA;Um dos aspectos que sempre achei curioso foi “o trato“. No caso, é a forma de se relacionar com as pessoas: como tratá-las. Também pode referir-se à maneira de se portar, o que também não deixa de estar relacionado à forma como você lida com as pessoas à sua volta. No grego, “αναστροφη”, também refere-se à mudança de comportamento causada por uma mudança no interior da pessoa.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;“O trato” pode ser um assunto difícil para muita gente. Eu, por exemplo, sou um dos que sofrem um pouco com isso.&#xA;&#xA;Nos meus primeiros anos como programador, eu tinha que comunicar-me diretamente com alguns clientes. E eu não entendia por que comentavam com a chefia que eu era “meio grosseiro“. A comunicação com eles ocorria mais ou menos dessa forma:&#xA;&#xA;    Bom dia, Cléber. O formulário de contato do site está com um erro. Poderia dar uma olhada? Obrigado.&#xA;&#xA;Eu passava um tempo resolvendo o problema e respondia:&#xA;&#xA;    Resolvido.&#xA;&#xA;Simples assim. Hoje eu dou risada ao lembrar, mas é curioso como as pessoas se impressionam com tão pouco. Esse tipo de resposta fazia de mim um “cara grosseiro”. Eu demorei um tempo para descobrir que é sábio “florear” a resposta:&#xA;&#xA;    Oi, Fulano. Tudo certo? Eu dei uma olhada no formulário de contato e, de fato, estava apresentando erro. Mas agora já está corrigido. Se houver qualquer outro problema, fique à vontade para entrar em contato.&#xA;&#xA;Eu sempre achei todo esse palavrório um exagero, mas, enfim, o que é exagero para mim, parece ser “o básico” para muitas pessoas.&#xA;&#xA;O fato é: a forma como você relaciona-se com as pessoas pode render-lhe aliados ou inimigos. No caso desses antigos clientes, que recebiam um mero “resolvido” como resposta, imagino que, se pudessem escolher, nunca mais comunicariam comigo qualquer necessidade deles.&#xA;&#xA;Assim, minha sugestão é: capriche no trato e ganhe sempre aliados. Não por egoísmo ou como que para tirar proveito próprio, mas porque pessoas tem um valor imensurável na carreira profissional e na vida. Elas não são “um degrau a mais” na sua “escalada em direção à vitória”: elas são a base, o fundamento sobre o qual você poderá construir as pequenas e grandes coisas. As pessoas à sua volta não são “um plus”: você precisa delas para sobreviver. Não são o exercício na academia, mas o arroz e feijão da vida.&#xA;&#xA;Mas como posso melhorar meu relacionamento com os outros? Apenas melhorando minhas respostas no e-mail? Bem, acredito que posso dar mais algumas dicas, que são:&#xA;&#xA;Esteja pronto a servir&#xA;Não importa a posição que você ocupe. Você é o dono de uma grande empresa? Esteja pronto a servir. É seu primeiro emprego? Esteja pronto a servir.&#xA;&#xA;Você se importa se eu citar a Bíblia novamente?&#xA;&#xA;Roboão, filho de Salomão, herdava o reino de Israel no auge do seu esplendor. E já no começo de seu reinado, o povo foi até ele pedir que lhe “aliviasse o jugo” imposto por Salomão (basicamente, trabalho e impostos). Então…&#xA;&#xA;    Teve o rei Roboão conselho com os anciãos que estiveram na presença de Salomão, seu pai, quando este ainda vivia, dizendo: Como aconselhais vós que se responda a este povo? E eles lhe falaram, dizendo: Se hoje fores servo deste povo, e o servires, e respondendo-lhe, lhe falares boas palavras, todos os dias serão teus servos.&#xA;&#xA;Não é curioso o conselho dos anciãos? Eles eram sábios e aconselharam que o rei servisse o povo. Eu acredito que esse conselho sirva, também, para nós que, afinal, nem somos reis de coisa alguma.&#xA;&#xA;Mas como servir? A necessidade mais básica é livrar-se do egoísmo. Se você quer ajudar alguém, o mínimo que pode lhe dar é tempo. E esse tempo investido em outrem sai de algum lugar: o tempo que seria investido em você. Quem é obcecado por si próprio jamais conseguirá servir os outros.&#xA;&#xA;Você faz parte de um time e tem a seguinte decisão na mão: entregar o seu trabalho agora ou gastar mais uma hora fazendo algo que não lhe foi pedido, que não é sua obrigação, mas que você sabe que beneficiará outros mais pra frente. O que você escolhe?&#xA;&#xA;Não limite-se à sua obrigação!&#xA;&#xA;Mas não seja intrometido&#xA;Tentar resolver o problema de todo mundo é, na verdade, uma forma de desvalorizar as pessoas à sua volta. Você passa, de certa forma, a mensagem de que só você é quem sabe fazer as coisas direito e que todos os outros são incompetentes.&#xA;&#xA;Não fique metendo o nariz onde não é chamado. Aprenda a respeitar limites.&#xA;&#xA;É claro: o equilíbrio entre estar pronto a servir e não ser intrometido é um objetivo que pode ser difícil de ser alcançado. Mas todos podemos nos esforçar para chegar no ponto de saber intervir na hora certa e de saber dar um passo para trás e deixar que outras pessoas vençam seus próprios desafios.&#xA;&#xA;Eu, pessoalmente, tomo muito cuidado na hora de dar conselhos ou indicar a direção certa para alguém. Pessoas diferentes reagem de maneiras diferentes a esse tipo de situação. Alguns são abertos à opinião alheia, outros são desconfiados e podem encarar isso como uma espécie de diminuição pessoal.&#xA;&#xA;Nessa hora, aquela “floreada” pode vir bem a calhar:&#xA;&#xA;    Não quero ser intrometido, mas, enfim, acredito que um ponto de vista de alguém de fora pode ser interessante. Me corrija, por favor, se eu estiver dizendo uma besteira, mas não seria interessante se…&#xA;&#xA;Muito cuidado com expressões como “não é melhor fazer assim?” ou “por que você não faz desse jeito?”. Especialmente o “por que você não…”! É muito fácil acabar criando uma resposta implícita no ponto de vista alheio, como “na verdade, ele quer dizer que eu não faço assim porque não sou tão competente ou inteligente!”. E você não quer isso.&#xA;&#xA;Aprenda a escutar&#xA;Alguns tem essa habilidade, outros não. Mas todos devem buscá-la. É extremamente desagradável falar com alguém que simplesmente ignora tudo o que você diz.&#xA;&#xA;Não importa se seu colega está dando uma ideia que já foi debatida dezenas de vezes no ano passado. Ouça novamente ou, pelo menos, se sentir-se obrigado a cortá-lo no meio de uma frase (por motivos de tempo, por exemplo), aprenda a dizer:&#xA;&#xA;    Desculpe-me interrompê-lo. Essa ideia até é interessante, tanto que foi debatida várias vezes no ano passado. O problema com ela, conforme vimos, é esse, esse e aquele.&#xA;&#xA;Ademais, procure se importar com quem está com a “ideia atrasada”. Talvez seu colega não tenha se convencido. Converse com ele, com paciência, e esteja pronto a sanar suas dúvidas.&#xA;&#xA;Desenvolva sua própria inteligência emocional&#xA;As pessoas reagem de maneiras impulsivas a determinados estímulos e isso nem sempre parece fazer qualquer sentido. Mas cada um tem sua história. Se você se ofende fácil com qualquer coisa, ficará ofendido com todos à sua volta. Todos tem alguma esquisitice e, a não ser que você queira morar numa ilha deserta, é bom aprender a lidar com isso.&#xA;&#xA;Nem toda grosseria significa ódio. Nem toda resposta “seca” significa desprezo. Nem toda atitude deselegante é planejada.&#xA;&#xA;As pessoas farão ou dirão coisas que você não esperava, não porque tenham algo contra você, mas simplesmente porque tem anos de história própria, com suas famílias, com seus amigos, com seus cônjuges, com seus filhos, com seus vizinhos e com seus cães e gatos e peixes e iguanas e algum estímulo, por mais inocente que seja, vindo da sua parte (uma palavra, uma gíria, um gesto ou um espirro esquisito) acionou um “gatilho psicológico” difícil de explicar.&#xA;&#xA;Pessoas são complicadas. Lide com isso.&#xA;&#xA;Ache uma boa fonte de feedback&#xA;Há pessoas que estão sempre dispostas a lhe dizer que “você pareceu grosseiro” ou “acho que aquilo foi desnecessário”. Pode ser um tanto irritante ouvir esse tipo de coisa, mas, por outro lado, pode servir como um feedback importante. Novamente: aprenda a ouvir.&#xA;&#xA;E, claro, procure dar preferência ao feedback de quem já apresenta um bom trato.&#xA;&#xA;Mas e as pessoas más?&#xA;Nesse mundo há gente que é simplesmente perversa e você pode se perguntar: é bom esse tipo de gente ser uma aliada minha?&#xA;&#xA;A definição de “mau” é complexa, mas há, de fato, pessoas à nossa volta que, independente da complexidade da definição, são simplesmente desprezíveis. Nesses casos, eu recomendo trabalhar-se a arte da manipulação. Mas isso já é assunto para outro post…&#xA;&#xA;-----&#xA;Este artigo foi escrito originalmente em 22/08/2016.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="/upload/two-guys-talking-statue.jpg" alt="two guys talking statue"></p>

<p>Uma palavra que desde muito cedo me chamou a atenção e permanece gravada na minha memória é 1 Timóteo 4:12:</p>

<p>    Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza.</p>

<p>Por tratar-se de uma carta aberta, Paulo está dizendo às pessoas à volta de Timóteo: respeitem-no. E a Timóteo: faça por merecer tal respeito.</p>

<p>Um dos aspectos que sempre achei curioso foi “o trato“. No caso, é a forma de se relacionar com as pessoas: como tratá-las. Também pode referir-se à maneira de se portar, o que também não deixa de estar relacionado à forma como você lida com as pessoas à sua volta. No grego, “αναστροφη”, também refere-se à mudança de comportamento causada por uma mudança no interior da pessoa.</p>



<p>“O trato” pode ser um assunto difícil para muita gente. Eu, por exemplo, sou um dos que sofrem um pouco com isso.</p>

<p>Nos meus primeiros anos como programador, eu tinha que comunicar-me diretamente com alguns clientes. E eu não entendia por que comentavam com a chefia que eu era “meio grosseiro“. A comunicação com eles ocorria mais ou menos dessa forma:</p>

<p>    Bom dia, Cléber. O formulário de contato do site está com um erro. Poderia dar uma olhada? Obrigado.</p>

<p>Eu passava um tempo resolvendo o problema e respondia:</p>

<p>    Resolvido.</p>

<p>Simples assim. Hoje eu dou risada ao lembrar, mas é curioso como as pessoas se impressionam com tão pouco. Esse tipo de resposta fazia de mim um “cara grosseiro”. Eu demorei um tempo para descobrir que é sábio “florear” a resposta:</p>

<p>    Oi, Fulano. Tudo certo? Eu dei uma olhada no formulário de contato e, de fato, estava apresentando erro. Mas agora já está corrigido. Se houver qualquer outro problema, fique à vontade para entrar em contato.</p>

<p>Eu sempre achei todo esse palavrório um exagero, mas, enfim, o que é exagero para mim, parece ser “o básico” para muitas pessoas.</p>

<p>O fato é: a forma como você relaciona-se com as pessoas pode render-lhe aliados ou inimigos. No caso desses antigos clientes, que recebiam um mero “resolvido” como resposta, imagino que, se pudessem escolher, nunca mais comunicariam comigo qualquer necessidade deles.</p>

<p>Assim, minha sugestão é: capriche no trato e ganhe sempre aliados. Não por egoísmo ou como que para tirar proveito próprio, mas porque pessoas tem um valor imensurável na carreira profissional e na vida. Elas não são “um degrau a mais” na sua “escalada em direção à vitória”: elas são a base, o fundamento sobre o qual você poderá construir as pequenas e grandes coisas. As pessoas à sua volta não são “um plus”: você precisa delas para sobreviver. Não são o exercício na academia, mas o arroz e feijão da vida.</p>

<p>Mas como posso melhorar meu relacionamento com os outros? Apenas melhorando minhas respostas no e-mail? Bem, acredito que posso dar mais algumas dicas, que são:</p>

<h2 id="esteja-pronto-a-servir" id="esteja-pronto-a-servir">Esteja pronto a servir</h2>

<p>Não importa a posição que você ocupe. Você é o dono de uma grande empresa? Esteja pronto a servir. É seu primeiro emprego? Esteja pronto a servir.</p>

<p>Você se importa se eu citar a Bíblia novamente?</p>

<p>Roboão, filho de Salomão, herdava o reino de Israel no auge do seu esplendor. E já no começo de seu reinado, o povo foi até ele pedir que lhe “aliviasse o jugo” imposto por Salomão (basicamente, trabalho e impostos). Então…</p>

<p>    Teve o rei Roboão conselho com os anciãos que estiveram na presença de Salomão, seu pai, quando este ainda vivia, dizendo: Como aconselhais vós que se responda a este povo? E eles lhe falaram, dizendo: Se hoje fores servo deste povo, e o servires, e respondendo-lhe, lhe falares boas palavras, todos os dias serão teus servos.</p>

<p>Não é curioso o conselho dos anciãos? Eles eram sábios e aconselharam que o rei servisse o povo. Eu acredito que esse conselho sirva, também, para nós que, afinal, nem somos reis de coisa alguma.</p>

<p>Mas como servir? A necessidade mais básica é livrar-se do egoísmo. Se você quer ajudar alguém, o mínimo que pode lhe dar é tempo. E esse tempo investido em outrem sai de algum lugar: o tempo que seria investido em você. Quem é obcecado por si próprio jamais conseguirá servir os outros.</p>

<p>Você faz parte de um time e tem a seguinte decisão na mão: entregar o seu trabalho agora ou gastar mais uma hora fazendo algo que não lhe foi pedido, que não é sua obrigação, mas que você sabe que beneficiará outros mais pra frente. O que você escolhe?</p>

<p>Não limite-se à sua obrigação!</p>

<h2 id="mas-não-seja-intrometido" id="mas-não-seja-intrometido">Mas não seja intrometido</h2>

<p>Tentar resolver o problema de todo mundo é, na verdade, uma forma de desvalorizar as pessoas à sua volta. Você passa, de certa forma, a mensagem de que só você é quem sabe fazer as coisas direito e que todos os outros são incompetentes.</p>

<p>Não fique metendo o nariz onde não é chamado. Aprenda a respeitar limites.</p>

<p>É claro: o equilíbrio entre estar pronto a servir e não ser intrometido é um objetivo que pode ser difícil de ser alcançado. Mas todos podemos nos esforçar para chegar no ponto de saber intervir na hora certa e de saber dar um passo para trás e deixar que outras pessoas vençam seus próprios desafios.</p>

<p>Eu, pessoalmente, tomo muito cuidado na hora de dar conselhos ou indicar a direção certa para alguém. Pessoas diferentes reagem de maneiras diferentes a esse tipo de situação. Alguns são abertos à opinião alheia, outros são desconfiados e podem encarar isso como uma espécie de diminuição pessoal.</p>

<p>Nessa hora, aquela “floreada” pode vir bem a calhar:</p>

<p>    Não quero ser intrometido, mas, enfim, acredito que um ponto de vista de alguém de fora pode ser interessante. Me corrija, por favor, se eu estiver dizendo uma besteira, mas não seria interessante se…</p>

<p>Muito cuidado com expressões como “não é melhor fazer assim?” ou “por que você não faz desse jeito?”. Especialmente o “por que você não…”! É muito fácil acabar criando uma resposta implícita no ponto de vista alheio, como “na verdade, ele quer dizer que eu não faço assim porque não sou tão competente ou inteligente!”. E você não quer isso.</p>

<h2 id="aprenda-a-escutar" id="aprenda-a-escutar">Aprenda a escutar</h2>

<p>Alguns tem essa habilidade, outros não. Mas todos devem buscá-la. É extremamente desagradável falar com alguém que simplesmente ignora tudo o que você diz.</p>

<p>Não importa se seu colega está dando uma ideia que já foi debatida dezenas de vezes no ano passado. Ouça novamente ou, pelo menos, se sentir-se obrigado a cortá-lo no meio de uma frase (por motivos de tempo, por exemplo), aprenda a dizer:</p>

<p>    Desculpe-me interrompê-lo. Essa ideia até é interessante, tanto que foi debatida várias vezes no ano passado. O problema com ela, conforme vimos, é esse, esse e aquele.</p>

<p>Ademais, procure se importar com quem está com a “ideia atrasada”. Talvez seu colega não tenha se convencido. Converse com ele, com paciência, e esteja pronto a sanar suas dúvidas.</p>

<h2 id="desenvolva-sua-própria-inteligência-emocional" id="desenvolva-sua-própria-inteligência-emocional">Desenvolva sua própria inteligência emocional</h2>

<p>As pessoas reagem de maneiras impulsivas a determinados estímulos e isso nem sempre parece fazer qualquer sentido. Mas cada um tem sua história. Se você se ofende fácil com qualquer coisa, ficará ofendido com todos à sua volta. Todos tem alguma esquisitice e, a não ser que você queira morar numa ilha deserta, é bom aprender a lidar com isso.</p>

<p>Nem toda grosseria significa ódio. Nem toda resposta “seca” significa desprezo. Nem toda atitude deselegante é planejada.</p>

<p>As pessoas farão ou dirão coisas que você não esperava, não porque tenham algo contra você, mas simplesmente porque tem anos de história própria, com suas famílias, com seus amigos, com seus cônjuges, com seus filhos, com seus vizinhos e com seus cães e gatos e peixes e iguanas e algum estímulo, por mais inocente que seja, vindo da sua parte (uma palavra, uma gíria, um gesto ou um espirro esquisito) acionou um “gatilho psicológico” difícil de explicar.</p>

<p>Pessoas são complicadas. <strong>Lide com isso</strong>.</p>

<h2 id="ache-uma-boa-fonte-de-feedback" id="ache-uma-boa-fonte-de-feedback">Ache uma boa fonte de feedback</h2>

<p>Há pessoas que estão sempre dispostas a lhe dizer que “você pareceu grosseiro” ou “acho que aquilo foi desnecessário”. Pode ser um tanto irritante ouvir esse tipo de coisa, mas, por outro lado, pode servir como um feedback importante. Novamente: aprenda a ouvir.</p>

<p>E, claro, procure dar preferência ao feedback de quem já apresenta um bom trato.</p>

<h2 id="mas-e-as-pessoas-más" id="mas-e-as-pessoas-más">Mas e as pessoas más?</h2>

<p>Nesse mundo há gente que é simplesmente perversa e você pode se perguntar: é bom esse tipo de gente ser uma aliada minha?</p>

<p>A definição de “mau” é complexa, mas há, de fato, pessoas à nossa volta que, independente da complexidade da definição, são simplesmente desprezíveis. Nesses casos, eu recomendo trabalhar-se a arte da manipulação. Mas isso já é assunto para outro post…</p>

<hr>

<p><em>Este artigo foi escrito originalmente em <strong>22/08/2016</strong>.</em></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/exemplo-no-trato</guid>
      <pubDate>Mon, 09 Jan 2023 19:38:53 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>2023</title>
      <link>https://blog.cleber.solutions/blog/2023</link>
      <description>&lt;![CDATA[E cá estou eu, voltando a escrever depois de muito tempo. Ultimamente não me sinto muito inspirado. Escrever também pode ser um processo chato, e fica pior quando se está meio perdido com relação ao que se quer.&#xA;&#xA;Explico: pode-se &#34;escrever na Web&#34; visando alcançar vários objetivos. Alguns pensam em &#34;como monetizar seu blog&#34;, outros querem demonstrar thought leadership nas suas áreas de atuação e outros ainda querem pagar de intelectuaizinhos.&#xA;&#xA;Que bobos. Da minha parte, hoje, escrevo mais pelo apego ao &#34;ofício&#34; e também um pouco por me ajudar a organizar meus próprios pensamentos, até certo ponto (depois deste ponto, tudo vai se tornando mais confuso -- é estranho).&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Mas idos são os tempos em que eu mantinha uma pilha de post-its com temas sobre os quais eu deveria escrever. Cheguei até, por um tempo, a pensar em coisas como &#34;monetizar meu blog&#34; -- antes de desacreditar completamente na própria ideia de propagandas sendo exibidas em Websites.&#xA;&#xA;Bobagem. Se há algum &#34;retorno de investimento&#34; interessante em publicar minhas ideias, este é as conexões que se faz aqui e ali por meio de um ou outro texto. Conexões valem muito mais do que dinheiro, acredite.&#xA;&#xA;Mas onde escrever?&#xA;&#xA;Aproveitei, então, a virada de ano para resolver de vez uma questão que me incomodava havia tempos: eu precisava de uma boa plataforma para escrever.&#xA;&#xA;Eu já passei por quase todas as opções disponíveis: gerador de sites estáticos (Pelican/mkdocs), wikis, Wordpress, gerador de sites criado à mão, Medium... nada deu muito certo. Agora por último estava quase pagando por uma conta no Ghost, estava pensando seriamente em criar uma no Hashnode (ou talvez no dev.to) até que finalmente cheguei no write.as e seu projeto open source, o WriteFreely, que me agradou profundamente por uma série de motivos:&#xA;&#xA;A experiência de escrever me lembra muito a do Medium e em certos aspectos é até melhor;&#xA;A experiência de leitura é excelente, lembrando o Medium antigo;&#xA;Não tem nenhum dos males do Medium que me desagradava;&#xA;É self-hosted;&#xA;Não é escrito em Node (sempre um pesadelo para deployar, credo);&#xA;Permite criar múltiplos blogs (como as &#34;Publicações&#34; do Medium).&#xA;&#xA;Sim, é bem evidente que o Medium é meu principal parâmetro de comparação. E não é à toa. O Medium sofre do mesmo problema que o Youtube, a meu ver: os engenheiros são formidáveis, magníficos!, mas a gestão da plataforma e do produto é feita por imbecis...&#xA;&#xA;A experiência até agora&#xA;&#xA;Está sendo muito boa! O WriteFreely é simples o bastante e as páginas são servidas com boa velocidade. Gerenciar os vários blogs (separei os principais temas sobre os quais escrevo: Cristianismo, tecnologia e coisas gerais) é bem tranquilo.&#xA;&#xA;Escrever artigos aqui é um prazer, apesar de que inserir imagens é um desafio um pouco maior, já que o WriteFreely não implementa um gestor de arquivos, dependendo de sistemas externos para isso -- o que pode fazer muita gente torcer o nariz, mas eu gosto da coragem de dizer não para algo que muita gente deve ficar pedindo o tempo todo, mantendo o foco na edição e gestão de texto. Para mim isso demonstra algo admirável, além da coragem: visão. É bom usar produtos feitos com uma visão.&#xA;&#xA;Fim&#xA;&#xA;Enfim... por enquanto é isso...&#xA;&#xA;Feliz 2023 a todos!, apesar de todos os pesares.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>E cá estou eu, voltando a escrever depois de muito tempo. Ultimamente não me sinto muito inspirado. Escrever também pode ser um processo chato, e fica pior quando se está meio perdido com relação ao que se quer.</p>

<p>Explico: pode-se “escrever na Web” visando alcançar vários objetivos. Alguns pensam em “como monetizar seu blog”, outros querem demonstrar <em>thought leadership</em> nas suas áreas de atuação e outros ainda querem <em>pagar de intelectuaizinhos</em>.</p>

<p>Que bobos. Da minha parte, hoje, escrevo mais pelo apego ao “ofício” e também um pouco por me ajudar a organizar meus próprios pensamentos, até certo ponto (depois deste ponto, tudo vai se tornando mais confuso — é estranho).</p>



<p>Mas idos são os tempos em que eu mantinha uma pilha de <em>post-its</em> com temas sobre os quais eu <em>deveria</em> escrever. Cheguei até, por um tempo, a pensar em coisas como “monetizar meu blog” — antes de desacreditar completamente na própria ideia de propagandas sendo exibidas em Websites.</p>

<p>Bobagem. Se há algum “retorno de investimento” interessante em publicar minhas ideias, este é <strong>as conexões</strong> que se faz aqui e ali por meio de um ou outro texto. Conexões valem muito mais do que dinheiro, acredite.</p>

<h2 id="mas-onde-escrever" id="mas-onde-escrever">Mas onde escrever?</h2>

<p>Aproveitei, então, a virada de ano para resolver de vez uma questão que me incomodava havia tempos: eu precisava de uma boa plataforma para escrever.</p>

<p>Eu já passei por quase todas as opções disponíveis: gerador de sites estáticos (Pelican/mkdocs), wikis, Wordpress, gerador de sites criado à mão, Medium... nada deu muito certo. Agora por último estava quase pagando por uma conta no Ghost, estava pensando seriamente em criar uma no Hashnode (ou talvez no dev.to) até que finalmente cheguei no write.as e seu projeto <em>open source</em>, o WriteFreely, que me agradou profundamente por uma série de motivos:</p>
<ul><li>A experiência de escrever me lembra muito a do Medium e em certos aspectos é até melhor;</li>
<li>A experiência de leitura é excelente, lembrando o Medium antigo;</li>
<li>Não tem nenhum dos males do Medium que me desagradava;</li>
<li>É <em>self-hosted</em>;</li>
<li>Não é escrito em Node (sempre um pesadelo para <em>deployar</em>, credo);</li>
<li>Permite criar múltiplos blogs (como as “Publicações” do Medium).</li></ul>

<p>Sim, é bem evidente que o Medium é meu principal parâmetro de comparação. E não é à toa. O Medium sofre do mesmo problema que o Youtube, a meu ver: os engenheiros são formidáveis, magníficos!, mas a gestão da plataforma e do produto é feita por imbecis...</p>

<h2 id="a-experiência-até-agora" id="a-experiência-até-agora">A experiência até agora</h2>

<p>Está sendo muito boa! O WriteFreely é simples o bastante e as páginas são servidas com boa velocidade. Gerenciar os vários blogs (separei os principais temas sobre os quais escrevo: Cristianismo, tecnologia e coisas gerais) é bem tranquilo.</p>

<p>Escrever artigos aqui é um prazer, apesar de que inserir imagens é um desafio um pouco maior, já que o WriteFreely <strong>não implementa</strong> um gestor de arquivos, dependendo de sistemas externos para isso — o que pode fazer muita gente torcer o nariz, mas eu gosto da coragem de dizer não para algo que muita gente deve ficar pedindo o tempo todo, mantendo o foco na edição e gestão de texto. Para mim isso demonstra algo admirável, além da coragem: <strong>visão</strong>. É bom usar produtos feitos com uma visão.</p>

<h2 id="fim" id="fim">Fim</h2>

<p>Enfim... por enquanto é isso...</p>

<p>Feliz 2023 a todos!, apesar de todos os pesares.</p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.cleber.solutions/blog/2023</guid>
      <pubDate>Fri, 06 Jan 2023 01:50:45 +0000</pubDate>
    </item>
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